Antro Maldito.

 Aqui do meu antro maldito eu assisto a vida passar. Trancado nesse cubículo minúsculo que transborda com toda a minha insignificância. Meus demônios sobrevoam minha cadeira me observando jogar e me masturbar. O cheiro de enxofre se mistura com o cheiro de mofo e fumaça de cigarro.


    Me sinto desvanecendo,  me dissipando como se fosse feito de fumaça. Assisto todos os meus amigos cheios de vida e propósitos, ou simplesmente se esforçando pra seguir sempre em frente, enquanto estou com os membros amarrados e a cabeça afundada num rio lamacento que queima meus olhos mas me força a mantê-los abertos.


    Mandei embora a única pessoa que se propôs a me aceitar como eu sou. Mandei porque a estava machucando demais.


    É o terceiro dia que voltei a tomar o antidepressivo. Em boa parte do dia ele me contém; sou incapaz de sentir sentimentos como tristeza e apatia pela manhã. Porém conforme o sol se põe e a noite começa a cair, meus demônios ficam mais fortes e começam a dar trancos em suas correntes que estão amarradas as minhas pernas, os trancos são tão fortes que sou derrubado e bato com a cabeça, trazendo a tona tudo que eu não gostaria de lembrar. 


    Me desculpa pai, acho que não era isso que você queria pra mim. Mas se você se importasse genuinamente, não teria se matado, teria ficado pra cuidar de mim. Não me sinto tão culpado por te decepcionar, afinal, você desistiu também.


    Minha vida não passa um borrão. Vultos passando na frente dos meus olhos todos os dias. Estou cansado.


    Por que eu tinha de ser assim? Só queria ser abençoado com a santa ignorância, queria ir a igreja as quartas feiras acreditando que Deus proveria tudo. Acreditando que todas as provações seriam testes de Deus pra que eu ficasse mais forte e sábio e que no fim, fosse merecedor do reino dos céus.


    Mas se eu realmente acreditasse nesse universo, atualmente estaria sentado com o diabo negociando uma fração da minha alma em troca de um maço de cigarro.


    Eu comecei esse texto falando de uma coisa e acabei entrando numa espécie de fantasia da minha cabeça. Perdi o controle da minha linha de raciocínio. Acredito que parte de mim já tenha enlouquecido. Estou velho por dentro.

Senil.

Podre.

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