Adeus.

São 6:30 da manhã; chove e faz frio em São Paulo.

Com um cigarro aceso eu olho os carros passando daqui de cima, alguns tão rápidos quanto vultos.

Sou arrastado pra dentro de mim, eu já estivera ali antes; mas não só. Sou levado para uma memória, queimando viva, vejo tudo claramente, estou vivendo-a novamente.

  

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Naquele dia você havia acordado mais cedo que eu, você havia passado um café, o cheiro se espalhou pelo nosso apartamento, o seu café era o melhor que eu havia provado até então (talvez seja até hoje).  Sou desperto pelo barulho de um copo caindo, não fico irritado, vou até a cozinha, você está ajoelhada pegando os cacos, exatamente como fez com o meu coração quando me conheceu.

Sem dizer uma palavra me ajoelho ao seu lado, sorrindo, te ajudo a pegar cada pedacinho de vidro, tínhamos decidido dividir tudo, prazeres e frustrações, era tudo nosso agora, de nós dois.

Quando terminamos eu paro pra te olhar, você está linda.

Sob sua camisola de cetim está o conjunto de lingerie preta de renda que usou na noite passada, sua pele macia tem um cheiro suave de creme de morango, você me olha com olhinhos castanhos curiosos, tentando entender o que se passa dentro da minha cabeça, enquanto meus olhos te fitam, almejando por cada traço, cada detalhe seu, eu precisava lembrar daquilo eternamente, mesmo que minha memória não fosse boa.

Acaricio atrás das suas orelhas com os meus polegares, eu adorava fazer isso, e você adorava quando eu o fazia, você sorri com os olhos revelando pequenas marcas de expressão, eu já havia visto isso antes, foi a vista mais linda que eu tinha visto até então (talvez seja até hoje), desejo que todos um dia possam ter pelo menos um alguém que os olhem como você olhou pra mim naquela manhã.

Quem seria o responsável por ter te feito sofrer antes? Por que fez isso? Como uma pessoa foi capaz? Quem preferiria ver suas lágrimas ao invés de contemplar seu sorriso tão lindo?

Um universo se passa na minha cabeça durante os cinco segundos que te acaricio; eu respiro muito fundo, na intenção de dizer aquilo mais uma vez, mas o meu pulmão comprometido me faz tossir antes que eu consiga; a gente ri. 

“Eu te amo Aline.”

“Eu também te amo seu velhinho.”

            Nos beijamos e fazemos amor ali mesmo na cozinha. Nunca havia sido tão feliz até então (talvez até hoje).


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Sou trazido de volta com uma buzina alta e constante de um carro na avenida abaixo de mim; meu cigarro acabou, acendo mais um, dou um gole no meu cantil com conhaque, já são 7:00. Não sinto as pontas dos meus dedos e meu rosto está pálido e gelado, não me importo, o conhaque desce me aquecendo e me reconfortando, quase como um abraço interno de um velho amigo, uma sensação conhecida por alguns poucos melancólicos por aí.

Sou revolto em outra memória, uma de algumas horas atrás.

 

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Eu sempre odiei social, mas você tinha me obrigado a comprar uma camisa, ela era realmente linda, e eu adorava ela porque você tinha me ajudado a escolher, eu a usava naquele dia; mas não estava feliz.

Com um cigarro aceso eu olho catatônico para o nada, a chuva ainda não apagou o cigarro, e eu sou grato por esse pequeno deleite, mas eu por outro lado, estava encharcado, poças se formaram dentro dos meus tênis, a camisa em questão estava ensopada, meu cabelo escorria pelo meu rosto; nada mais me importava.

Eu olho mais uma vez para o seu caixão sendo abaixado, como poderia uma existência ser reduzida a um espaço de terra tão pequeno? Por que uma pessoa tão incrível partiu tão cedo? Você tinha tanto... Tanta luz, tanto potencial, todo mundo te amava, você transbordava alegria por onde quer que passasse. Por que não eu?!

Nada disso adiantava. Estava feito. A vida é assim, e ninguém escapa; sempre chega.

Ouvindo sua mãe aos prantos do meu lado, relaxo todos os meus músculos, não há mais força para reação em mim, eu não sou mais nada, era mais fácil quando remávamos contra a correnteza juntos.

Eu peço licença aos seus familiares que vinham te visitar uma vez por ano, mas que agora estavam ali, eu os odiava por isso. Provavelmente irão romantizar sua morte e dizer por aí o quanto você era incrível, sem sequer terem conversado verdadeiramente com você, sem conhecer toda a sua profundidade, provavelmente acreditando que você ainda era a mesma Aline de quando tinha 12 anos. Mas tudo bem, pelo menos irão eternizar sua memória de uma maneira positiva, decido não me importar com isso.

Fico desesperado pra sair dali, eu quero fugir. Corro e entro no primeiro ônibus que passa, e começo a me locomover por São Paulo, eu sabia aonde eu ia, só não conscientemente.

Estou chegando na Liberdade, você amava esse bairro, vivia aqui comprando coisinhas japonesas, tínhamos uma foto linda na qual estávamos juntos em um viaduto, você havia postado ela no seu instagram, e eu olhei pra ela o caminho todo, ouvindo “Confessions” do City and Colour. Choro como uma criança, todos me olham, não me importo, sou amargura pura. Chego.


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A cidade nunca esteve tão cinza, você se foi e levou junto sua caixa de lápis de cor.

 

Começa a tocar “Hello I’m in Delaware”, eu caminho a passos arrastados, peso 200 quilos.

 

Até que ponto é saudável criar uma dependência de alguém? Até onde isso deve ser evitado? Qual o preço de uma relação superficial e sem entrega? Qual o de uma intensa e profunda?

 

Não tenho nenhuma dessas respostas, me sinto vazio por dentro, mais do que nunca.

 

Meu peito dói muito, e lágrimas escorrem. Deus, como isso dói!

 

Volto ao presente, dou um último trago no cigarro.

 

Pulo.

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