Seja o que for, é pior pela manhã.

Ando a passos arrastados, a rua está molhada pela chuva do dia anterior, piso em todas as poças que consigo propositalmente, eu não me importo em ficar com o pé molhado e cozinhando dentro do tênis o dia todo; eu já não me importo com quase nada.


Carrego nas mãos um livro que peguei emprestado, tenho lido bastante ultimamente, mas só consigo ler no trem, não tenho paz em casa, o que não é um problema, afinal, moro no extremo leste e passo cerca de quatro horas do meu dia dentro de transportes públicos, dá pra ler bastante.


Passo por alguns colaboradores que trabalham comigo e os cumprimento, estou moribundo e com olheiras, deixo pra trás um rastro de morte, eles me olham compadecidos, como se já soubessem que estou por um fio. Não há nada que possam fazer. Agradeço por não tentarem.


Me sento distante de todos esperando para abrirem a entrada de funcionários, aquele é o meu ritual, acendo um cigarro (a única coisa que é deliciosa pela manhã), coloco meia dose de café e abro o meu livro, fico ali sentado, alheio ao mundo, inexistente, exatamente como deve ser.


Uma colaboradora se aproxima, maldita. Ela, assim como eu, também não gosta das manhãs, e tem um poder inexplicável de piorar ainda mais as minhas. Ela começa a falar sobre qualquer futilidade de sua vida medíocre invadindo o meu espaço e forçando uma interação extremamente desagradável, eu não preciso responder, ela poderia falar sozinha por meses, basta que eu fique ali, parado.


Ela me pede pra tomar do meu café, acreditando numa intimidade unilateral. Dou-lhe pra evitar que me fadigue mais, estou cansado e assim posso me livrar dela, faltam apenas alguns minutos.


Já estou no terceiro cigarro consecutivo quando a porta se abre. Entro. A partir desse ponto meus demônios ficam na porta me esperando sair do trabalho. Lá dentro eu me ocupo e tudo flui com naturalidade, com alguns contratempos que podem ser facilmente contornados.


Encontro com o Gustavo, ele me sorri, me abraça e diz uma frase de maneira melódica e com sua última sílaba prolongada por meio segundo a mais. Isso estabelece o início oficial do meu dia, não vai mais ser tão difícil dali pra frente.


Agora já não é mais manhã. Vivo o resto do meu dia, pego os meus demônios de volta e retorno pra casa esperando pra viver mais um dia de bosta.


Amanhã tem mais.


Queria que não tivesse.

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