Não me peça conselhos.

Alice morava perto de um campo de flores, cheio de borboletas e os mais variados tipos de flores, ervas, árvores e frutos. Seu país das maravilhas particular.

 

Todos os dias ela acordava com o canto dos pássaros, tomava seu café moído na hora e comia suas torradas com manteiga caseira, uma explosão sensorial animava suas papilas gustativas logo pela manhã, fazendo com que seus dias começassem bem e que isso se prolongasse até o anoitecer, quando ela preparava seu jantar com carnes da melhor qualidade compradas na fazenda vizinha, temperadas com ervas finas e frescas de seu próprio plantio.


Nem tudo são flores.

 

Todos os dias pela manhã, a caminho de seu trabalho, ela passava por um aterro sanitário, e assistia os caminhões despejando o lixo e as pessoas revirando o lixo em busca de algo para comer, aquilo a entristecia, mas bastavam alguns minutos no seu instagram pra que aquilo fosse retirado do seu consciente.

 

No aterro sanitário vivia Rafael; ele acordava todos os dias com a mesma fome do dia anterior, nunca havia comido um banquete, desde que nasceu seu único cenário tinha sido aquele aterro.

 

Toda manhã Rafael ia junto com os outros moradores dos arredores para esperar os caminhões trazerem o lixo, a única fonte de alimento que eles possuíam. Certas vezes Rafael não comia por um ou dois dias para deixar o pouco que encontravam para outras famílias que tinham crianças e idosos. Rafael morava sozinho e era um dos mais jovens ali; e caso ele morresse, também não faria diferença, ninguém sentiria a sua falta.

 

Quando era pequeno, Rafael havia pisado num prego e teve tétano; foi ao médico. Se lembra de não ter se preocupado com sua integridade nem por um segundo, a única pergunta que ele fez pro médico foi: “Quanto tempo uma pessoa consegue sobreviver sem comer?” e o médico em retórica disse que aquilo dependia muito de vários fatores, como idade, gordura corporal, o estado da saúde da pessoa em questão, entre outros fatores, mas que haviam relatos de pessoas que ficaram mais de 30 dias sem comer e que sobreviveram. Guardou aquela resposta pra vida toda.

 

Às vezes Rafael comia só um pão duro e passava o dia todo apenas com ele fermentando no estômago. Assim seguia sua vida.

 

Mesmo assim, quando encontrava garrafas com restos de conhaque no meio do lixo, quando encontrava cigarros no lixo (provavelmente de alguém que estava tentando parar e o presenteou sem saber), ou quando ganhava chocolate do dono da venda que ele lavava a fachada uma vez por mês, Rafael sorria.

 

Essa era a vida que ele tinha, e sua tolerância era altíssima, não há nada pior que a miséria, falta de saneamento, a fome, a doença, e a morte cheirando o seu cangote diariamente. Rafael apenas vivia, não havia nada a perder.

 

Certo dia Alice encontrou Rafael limpando a fachada da loja e por um acaso do destino eles começaram a conversar. Rafael contou sua história e Alice ouviu aquilo com um aperto no coração e um nó na garganta. No final do diálogo Rafael pediu pra ela comprar um maço pra ele e caso ela tivesse condições uma garrafa de qualquer bebida barata. Alice amargurada entrou na venda e comprou dois maços e duas garrafas de conhaque, pra ela e pra ele.

 

Quando ela chegou em casa, começou a beber o conhaque, as duas primeiras doses desceram cortando e queimando por dentro, a fumaça do cigarro vinha em seguida aliviando e entorpecendo, um encaixe perfeito. Não era tão gostoso quanto seu molho de ervas, mas era o acompanhamento perfeito pras notícias que Alice lia no seu iphone, matérias sobre a fome, desigualdade social, doenças que assolavam populações mais pobres ao redor do mundo.

 

Depois disso Alice nunca mais fora a mesma. Rafael havia quebrado a bolha de cristal que a protegia com apenas alguns minutos de diálogo. Alice se sentia esnobe e impotente frente a tanta desigualdade, e mesmo que fizesse algo mínimo, mesmo que fizesse “a sua parte” ela não conseguiria ajudar nem 0,001% das pessoas que estavam fadadas a aquelas condições.

 

Alice agora bebia todos os dias, não conseguia parar de fumar, e suas plantas não eram regadas há meses, jaziam secas no jardim, os passarinhos já não vinham mais, Alice entrou em depressão.

 

Nunca tinha encarado a tristeza, não possuía um mecanismo de defesa pronto para aquilo, toda aquela onda a atingiu como um soco no estômago, um soco que a fez vomitar, mais de uma vez inclusive, com superdosagens de medicações. Alice sentia a dor do mundo. E não queria mais sentir.

 

Em uma sexta feira, Alice não foi trabalhar, foi até o aterro atrás de Rafael, e para seu desprazer imensurável descobriu que ele havia morrido. Aparentemente comeu alguma coisa que tinha veneno pra ratos.

 

Alice sentia agora uma dor tão profunda que em seu rosto não existia expressão. Ela era incapaz de falar, sentir ou fazer qualquer coisa. Voltou pra casa sem sequer saber no que pensar.

 

Maldito seja o dia que Alice encontrou Rafael.

 

Naquela sexta feira, no auge de sua amargura e completo descontentamento, Alice se matou.

            

            Maior ainda é a dor dos que ainda vivem, por saber que o mundo ainda sente dor, que ainda sentimos a dor do mundo. Tudo caminha numa única direção, e você sabe do que falo não é Alice?

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