Sedados.

Como de habitual, acordei 5 da manhã, peguei meu celular, desliguei o alarme e quase que instintivamente abri o instagram. Tinham duas mensagens, li mas não respondi. Rolei o feed, alguns vídeos de gatos e manobras de skate. Pensei comigo mesmo “por que estou fazendo isso?”.

 

Em vários momentos do meu dia me senti inclinado a pegar meu celular, desbloquear a tela e abrir o instagram. Consumir dopamina barata.

 

Só nessa semana vi uns 15 anúncios diferentes de 15 caras fudidos na vida, fingindo serem bem sucedidos, vendendo uma porra de um curso que promete ensinar a investir no mercado financeiro e ficar rico enquanto você assiste netflix.

 

Ah vai tomar no cu né?

 

Eu quero que o mercado financeiro se foda.

 

Não sou excepcional, não nasci com nenhum talento, não tenho determinação pra me formar e “virar o jogo”, nasci pobre e vou morrer pobre; já aceitei isso. Não quero nada.

 

Vejo as pessoas exibirem seus corpos sem sequer saberem o porquê de estarem fazendo aquilo, é cultural, um padrão estabelecido na engrenagem da plataforma, tem quem posta e tem quem curte. Conteúdo sexual, vendendo prazer visual, com corpos moldados, com edições, ângulos, filtros e montagens, a vida plástica perfeita. Tudo armado pra que você passe horas ali, idealizando um mundo que não existe.

 

Estamos sedados. Paro para olhar por um instante ao meu redor, estamos todos conectados, eu posso não conhecer o “Pedro”, mas basta alguns toques na minha tela pra que eu reúna material sobre ele. A vida dele está toda ali exposta, passeios, família, interesses, resumido em um cubículo virtual, me lembra muito um caixão. Toda a existência reduzida em um pequeno espaço; estamos todos mortos.

 

Mark Zuckerberg é o maior cretino vivo. Ele e as grandes corporações que dominam o mundo, que sabem de todos os nossos movimentos, que controlam o programa de simulação de nossas mini vidas.

 

Se você não está ali, você fica à margem, a própria sociedade, aos poucos, se encarrega de te excluir, de te isolar. Isso não é palpável, não é como se fosse perceptível do dia para a noite, mas aos poucos você se vê solitário, sem amigos, você já não se sente atraído por aquilo, e as pessoas já não se atrem mais por você, você é estranho, triste, tóxico, não assiste BBB.


Por que vocês fazem essas dancinhas? Desde quando se expor se tornou normal? Eu sou chato né? Vocês estão apenas sendo felizes né? Desde quando isso se tornou o conceito de felicidade? Vocês estão seguindo o fluxo de um rio que desagua em lugar nenhum. Não tem propósito em nada do que fazemos.

 

De qualquer forma, não sentirei falta de ninguém. Conexões fracas e superficiais.

 

Minha solidão sim é palpável, cada dia mais íntima, cada dia mais acolhedora.

 

Sou um boi num abatedouro. Sei do meu destino, estou amargurado e conformado, não há resistência da minha parte, que comam minha carne e se deleitem. Pelo menos depois de morto poderei oferecer algo de bom.


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