Lucy e eu.

A vida é realmente imprevisível; não concorda?

 

Eu sempre fui muito bom em escrever sobre qualquer coisa, era formado em letras e jornalismo, trabalhava pra um jornal local mas tinha um blog, alguns livros publicados e produzia textos também pra muitas outras revistas.

 

Meu único problema, dizia minha mãe; eu não sabia escrever sobre amor. Eu talvez nem fosse capaz de senti-lo.

 

 

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16 de março de 1985.

 

Eu estava tendo um dos piores dias da minha vida, estava chovendo, tinha esquecido minha carteira em casa, só tinha 10 dólares no bolso e teria de fazer hora extra pois precisava terminar de redigir um texto que estava exigindo muita pesquisa.

  

Entrei numa cafeteria, disposto a gastar os meus 10 dólares em um café extra forte que me revigorasse de uma noite muito mal dormida.

 

Eu mal sabia que aquele café mudaria a minha vida.

 

Passou por mim uma jornalista que trabalhava no Times, Claire. Naquele café, não tinha uma pessoa que não a estivesse olhando, ela estava com uma saia preta de couro um pouco acima da linha do joelho, uma camisa social branca por dentro da saia, um blazer cropped preto e um salto alto scarpin provavelmente de 16 cm. E é claro; loira e de óculos. Aqui em Nova York cada esquina tinha 5 Claire’s, era como mato.

 

Já tínhamos saído algumas vezes e por conta disso, suspeitava que ela era apaixonada por mim. Claire me parava pra conversar (não importava a ocasião), me telefonava quando ficava embriagada, me enviava cartões postais quando viajava e até tinha me chamado pra ir em um almoço com a sua família uma vez. Não fui.

 

Eu até gostava dela, mas conforme o tempo foi passando, (assim como todo mundo nessa porra de cidade) a fama e o dinheiro fizeram Claire mudar completamente. Ela agora frequentava festas da alta sociedade, escrevia na sua coluna de fofocas e só sabia falar sobre a bolsa de valores e suas ações. Credo.

 

Ela sorriu e veio em minha direção:

 

- Bom dia. - Com uma voz sensual que teria feito qualquer homem ficar maluco.

 

Eu sorri e enquanto nos abraçávamos respondi:

 

- Não tão bom quanto gostaria, mas isso acontece né?

 

- Noite ruim?

 

- Você não faz ideia... Estou investigando um assassinato e isso está acabando comigo.

 

- Gostaria de poder falar mais sobre isso, tentar te ajudar, mas estou um pouco atrasada, que tal um jantar hoje?

 

- Não sei, não me sinto como uma boa companhia pra você Claire... Posso te responder mais tarde? Telefono pra você no jornal.

 

Ficamos combinados assim, nos despedimos e segui para o balcão pra pegar meu café. Fiz o meu pedido, mas a moça do balcão ficou me olhando por um tempo maior do que seria considerado normal. Eu fiz um gesto com a mão na frente dos seus olhos.

 

- Alô, tem alguém em casa?

 

Ela abriu um sorriso (lindo inclusive).

 

- Eu conheço você! Leio o seu blog e já li algumas de suas reportagens. Estou fazendo um trabalho na faculdade e usei um de seus livros como referência.

 

Era uma fã. Infelizmente eu era um pouco popular, esse tipo de situação sempre me colocava em saia justa, não era muito bom socializando, e nunca sabia o que dizer aos jovens que buscavam seguir meus passos e me admiravam. Eu me considerava um cara normal, como qualquer outro.

 

- Puxa, eu... Fico lisonjeado. Sobre o que é seu trabalho?

 

- Faço faculdade de história, estou fazendo um trabalho sobre memórias e registros. Fui em alguns asilos pra recolher depoimentos de idosos e fazer algumas fotos. Estou usando o seu livro que você escreveu em homenagem a sua mãe. Ele fala sobre estruturas familiares e tem definições para alguns sentimentos que ninguém poderia descrever melhor do que você.

 

Me fisgou. Falar sobre minha falecida mãe me deixava sentimental e nostálgico, mas era sempre um prazer. Eu tinha vários livros sobre diversos temas, aquele livro era o último que eu imaginaria ser usado pra um trabalho acadêmico. Estava surpreso, mas de uma forma agradável.

 

- Eu adoraria ler seu trabalho e quem sabe até ajudar de alguma forma. – Coloquei meu bloco de anotações sobre o balcão. – Anota o seu telefone aqui e depois falamos sobre isso. A propósito, como você se chama?

 

De dentro da cafeteria pude ver um guarda de trânsito me aplicando uma multa.

 

- Ah buceta, era só o que me faltava. Que desgraça de vida do caralho!

 

Corri pra fora com o meu café e não paguei. No meio da confusão acabei indo embora.

 

Puto da cara.

  

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No trabalho o meu dia foi extremamente monótono, era tudo o que eu precisava pra acalmar um pouco os nervos. Consegui me organizar e colocar minha cabeça no lugar. Até que, por volta das 18:00, bem próximo do final do meu expediente, o telefone da minha sala toca.

 

- Parece que alguém esqueceu de mim, não é mesmo?

 

Era a Claire. Porra, como eu pude esquecer dela?!

 

- Oi meu bem, desculpa, está tudo uma loucura hoje, eu não esqueci, mas não tive tempo pra te ligar. – Menti.

 

- Tudo bem, só me diz, ainda vamos nos encontrar hoje?

 

Pensei por uns 6 segundos. Não tinha propósito em continuar aquilo, a gente tinha ficado no passado, eu não precisava ficar mentindo pra mim mesmo.

 

- Não Claire, sinto muito.

 

Ela ficou muda, numa mescla de compreensão e frustração. Ela estava oficialmente desistindo de mim. Um caso perdido.

 

- Ok, fique bem. – Desligou.

 

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Estava absorto em pensamentos quando meu chefe entrou na sala.

 

- E aí, como anda aquela matéria dos assassinatos. – Ele sempre ia direto ao ponto, sensibilidade não era seu forte, mas era um sujeito singular.

 

- Fiz bastante progresso, mas ainda não vou conseguir terminar, terão de publicar outra matéria essa semana...

 

Ele olhou pra minha mesa, estava cheia de papéis, recortes, livros, copos de café e cartelas de aspirina.

 

- Que bagunça Luke... Olha, eu sei que está empenhado nisso, mas não acha que é um pouco demais? Sei que já trabalhou em coisas maiores e mais complicadas, mas os tempos mudaram, hoje ganha quem tem mais informações e em primeira mão, tudo precisa ser prático, as pessoas estão ávidas por consumir conteúdo, não podemos nos dar o luxo de deixá-las esperando.

 

Eu apenas asssenti com a cabeça. Sabia que ele estava certo.

 

- Chefe, meu reconhecimento sempre veio pela qualidade dos meus textos, não por uma produção massificada de textos comuns e pobres de vocabulário... O senhor sabe; estamos nessa juntos há anos.

 

- Luke, preciso que termine isso o quanto antes. E preciso que das próximas vezes pegue matérias mais simples, eu sou compreensivo e aprecio o seu trabalho, mas acima de mim tem alguém que me cobra por mais textos em menos tempo, esse alguém paga o meu salário e paga o seu. Conto com você.

 

Ele saiu e me deixou pensativo, eu precisava acelerar o processo. Levei a mão instintivamente ao bolso aonde deixei meu bloco de notas com todo o meu progresso investigativo. Pelo menos, aonde ele deveria estar... Inferno, perdi meu bloco de notas!

 

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Olho para a estante e vejo meu bom e velho bloco de notas. Meu leal companheiro.

 

Me levanto da poltrona e faço um pequeno tour pela casa, não é muito grande, mas é aconchegante. Repleta de fotos por todos os cantos, assoalho de madeira de grapia, com cortinas brancas nas janelas, a minha biblioteca particular ocupa duas estantes verticais de 80 larg x 42 prof x 178 alt, um sofá retrátil preto, uma linda mesa de centro para 6 pessoas, minha coleção de discos e cd’s em uma prateleira rústica. Simples e suficiente; tudo que eu sempre sonhei, tanto que eu consegui.

 

Vou até a cozinha e ela está lá, preparando nosso almoço, depois de todos esses anos ela continua linda, radiante, com a mesma silhueta, como se os anos só lhe tivessem passado nos cabelos, que agora eram grisalhos.

 

O que mais mudou pra mim foi a minha perspectiva das coisas. Antes era inconcebível viver uma vida toda ao lado de uma única mulher. Como suportar alguém todos os dias pro resto da vida? Parecia um martírio. Não foi, não é e não será.

 

- O cheiro está ótimo meu bem. Sopa de ervilha para os dias frios?! A melhor sopa da região. E quem discordar que venha se entender comigo!

 

- Você sempre dramático meu bem. – Me abriu um sorriso (lindo inclusive). – Nosso almoço fica pronto em uns 20 minutos.

 

- A louça é minha.

 

Enquanto lavo a louça minha mente vai longe.

 

- Meu bem, se lembra do dia que nos conhecemos? Me fala sobre esse dia de novo?

 

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Eu estava no meu final do expediente, o café estava fechando e eu tinha pago 10 dólares do meu bolso porque meu autor favorito tinha saído sem pagar lançando ofensas e palavras de baixo calão ao vento.

 

Depois de tudo limpo e organizado ouço a campainha da porta de entrada. Mas será possível, ninguém lê a maldita placa?!

 

- Me desculpe, estamos fechados... – Eu congelei pela segunda vez no mesmo dia.

 

Com alguns fios grisalhos, vestia uma calça jeans e uma camisa social violeta por fora das calças, all star (também violeta) combinando com a camisa (como de costume), estava molhado e ofegante, senti no ar um cheiro de cigarro com perfume e um leve toque de café.

 

- Ham, oi... Se lembra de mim? Estive aqui mais cedo, falamos sobre o seu trabalho e tudo o mais. Por acaso eu deixei o meu bloco de notas com você? Preciso muito dele e estou desesperado.

 

Eu fiquei estupefata pela presença imponente e inerte na minha frente, me fitava com olhos negros, pequenos e brilhantes, tinha um ar inteligente, impassível, e apesar de aparentar ter seus 31 anos, exalava juventude e uma predisposição ao desastre; como um adolescente.

 

Depois de ficar olhando eu consegui me mexer.

 

- Ham... Sim, digo... Claro, está aqui no meu escritório, só um minuto. – Vasculhei na minha gaveta e encontrei. – Prontinho, seja bem vindo ao achados e perdidos da Lucy. – Entrego sorrindo.

 

- Meio pequeno o seu escritório, não acha Lucy? – Me disse sorrindo em tom de deboche.

 

- Grande o suficiente Luke, menos é mais. – Sorri toda boba. – A propósito, se olhar bem, tem o meu número na última folha. Juro que não li nenhum dos 30 poemas que tem aí dentro no meu horário de almoço.

 

- Ei! – Protestou. – É assim que o achados e perdidos da Lucy respeita a privacidade das pessoas?

 

- É! – Disse em tom de afronta e ironia. Ao mesmo tempo ergui a sobrancelha esquerda. - Não tenho culpa se você é um cabeçudo!

 

- Você nunca perde uma discussão não é mesmo? Tudo bem, você venceu! – Ele fez um gesto levantando as duas mãos com as palmas viradas pra fora do corpo, na altura do tórax, um gesto de rendição. – De qualquer forma, obrigado por guardar isso pra mim, você me salvou. A propósito, vou te ligar pra debatermos sobre seu trabalho; ligo ainda essa semana.

 

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Lucy olha para seu diploma pendurado na parede da sala.

 

- Minha nota foi a melhor da turma naquele trabalho, fui aprovada com louvor. Todo mundo adorou minha proposta e eu apresentei muito bem, apesar do nervosismo. Você estava lá, estava lindo. E ainda levou pra me assistir o homem que me daria meu primeiro emprego como redatora numa revista de história. Emprego no qual passei 10 anos.

 

Eu sorri olhando para ela e lembrando de tudo. Toda a nossa história.

 

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- Olha só, você está me ajudando mas não fique pensando que eu vou ficar pagando seus cafés, seu cabeçudo.

 

- Céus, como você é sovina! – Eu disse gargalhando ao vento. – 24 anos com manias de velha!

 

Ela me mostrou a língua.

 

Lucy estava deslumbrante. Usava um um all star amarelo, um vestido branco até as canelas estampado com flores amarelas (girassóis), tudo perfeitamente equilibrado. Seu cabelo, loiro, longo e suavemente ondulado dançava e balançava sobre seus ombros enquanto ela se movia. Seu rosto era angelical, traços finos, olhos azuis acinzentados, lábios não muito finos e nem exagerados, balanceados e harmonizados, tinha uma “xuxinha” amarela no pulso e suas unhas estavam muito bem pintadas, adivinha a cor?

 

Se esgueirando habilidosamente entre as prateleiras da biblioteca, como alguém que conhecia o terreno e poderia te guiar facilmente num tour, conhecia cada seção como a palma das mãos. Procurava os livros avidamente.

 

- Você está realmente inspirada pra terminar esse trabalho né?

 

- Como se minha vida dependesse disso! E na verdade... Meio que depende.

 

- Será que no meio disso tudo tem espaço pra mim?

 

Ela me olhou e sorriu.

 

- Só se você se comportar. – Pausa dramática. – E... me ajudar com a conclusão. – Gargalhou.

 

- Trato.

 

Dei um beijo lento e suave naqueles lábios macios, tinham um encaixe perfeito com os meus, e quando nos beijávamos, ficavam levemente molhados, o suficiente pra me deixar louco. Louco por aquela menina cheia de vida; que me trouxe vida.

 

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Veja, isso aqui não é uma história de amor. Não é sobre grandes reviravoltas ou sobre uma paixão proibida e cheia de empecilhos. Nosso amor nasceu de uma pequena aventura num dia ruim qualquer. Completos desconhecidos que cruzaram seus caminhos numa segunda feira corriqueira.

 

Eu tive uma vida com algumas mulheres, tive opções, poderia ter ficado com qualquer uma, mas não quis qualquer uma. Escolhi a Lucy.

 

Isso é uma história sobre escolhas. Sobre consistência e paciência. Pra muitos isso é um mito, pra muitos o amor morreu. Mas eu digo que ele vive no coração de quem permite. Não é algo que floresce do nada, e muito menos que se mantém sem ser regado diariamente, mas é uma flor linda, que quando contemplada, reflete todo o seu zelo e empenho em mantê-la.

 

Hoje eu escrevo sobre o amor com o peito aquecido, mamãe, eu finalmente aprendi; a senhora tinha razão. Faltava uma peça no quebra cabeça, minha genialidade não bastava, eu tinha um mundo imenso e complexo, mas era cinza, faltava colorir. Lucy o coloriu.

 

Hoje, 36 anos depois, eu com 67 e ela com 60, comemoramos nossas bodas de pérola. Eu acredito que encontrei minha “metade da laranja”, um amor pra vida inteira. Não imaginava isso, nunca quis, mas cá estou.

 

Não temos filhos, nunca planejamos. Viajamos um bocado, estudamos, nos divertimos e redigimos textos incríveis que serão eternos na memória de cada um que leu. Assim como seremos eternos na memória um do outro, e agora, seremos eternos na sua memória também.

 

Esse foi o último texto de um escritor cansado, falando baboseiras sobre amor, felicidade e plenitude. Mas sabe... Com o passar dos anos, ficamos felizes com muito menos, valorizamos cada pequeno gesto, e eu sou muito feliz.

 

Espero que encontre o seu caminho e seja muito feliz também. Mesmo que sozinho. Se não fosse Lucy eu seria um solteirão e resmungão falando sobre como tudo era melhor na minha época. Cada um tem seu próprio caminho. Todos levam a morte, mas ao menos, podemos ser felizes no meio.

 

Agora preciso ir porque Lucy está me esperando pra ver um filme, essa chata já até escolheu inclusive; ela sempre escolhe. Se passaram 36 anos e ela realmente nunca perdeu uma discussão.

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