Recrutamento e Submissão; um texto sobre a escória da sociedade.

Deixei pra trás uma imagem residual projetada por cerca de dois anos, algumas planilhas salvas num desktop de canto qualquer e um bom amigo.


Olho pra minha situação atual, penso no que acho que sei sobre tudo e sobre todos. Desdenho.


Estou desempregado, fui mandado embora semana passada. Sobre isso, eu não estou mal, mas precisava destilar um pouco pra falar sobre.


O mercado de trabalho não é sobre competência (ou incompetência), não é sobre conhecimento (ou a falta dele), não é sobre potencial (ou impotência completa). O mercado de trabalho é um misto de dois pontos chaves que oscilam em uma nuance constante.


Um deles é o jogo de interesses; não importa o quanto você saiba e o quanto você faz, dê os créditos ao seu superior. Se mate de trabalhar e deixe que ele fique com todo o mérito, espalhe sobre o “bom trabalho” que seu chefe desempenha e veja a magia acontecer. Todo chefe gosta de um bom boquete no ego.


O outro ponto são as aparências; o quanto você é capaz de bajular aquele seu chefe em troca de um espaço pequeno e medíocre? O quanto você pode trabalhar quando alguém está olhando e sumir quando não estão? (Geralmente quando mais se precisa.) O quanto você pode se vangloriar por ter feito algo mínimo e se promover por aquele feito por meses (sendo que muitos fazem muito mais em menos tempo e nem fazem questão dos créditos). É sobre isso.


Ainda existe uma terceira vertente, mas essa é tão nojenta e pútrida que eu nem queria falar sobre, mas... O quanto você é capaz de ser tão apático ao ponto de ficar em um canto e passar despercebido durante anos de prestação de serviço? O quanto você deita a sua cabeça no travesseiro e dorme tranquilo sabendo que tem alguém se fodendo no serviço enquanto diariamente você se omite e se contenta em fazer o mínimo (e ainda se vangloriar disso). Você é um parasita, morra e será mais útil; ao menos servirá de comida aos vermes.


Minha perspectiva de pessoa observadora e inclinada a negatividade e acidez é essa.


Como pobre e com um mindset de assalariado, sou compreensão e complacência pura. Para o mercado somos números, e isso não é novidade. Pouco se importam se estamos doentes, se temos filho, família ou seja lá qual for o seu problema, “legal, uma pena que foda-se”. Isso é culpa das empresas, isso é culpa do estado, isso é culpa do sistema instaurado, isso é culpa nossa (sociedade).


Nunca me conformei com a ideia de tanta gente incompetente ser escolhido como líder, sua incompetência fica ali, sendo refletida diariamente em qualquer coisa que faça; você não sabe fazer nada, não é mesmo? Quer que eu te ajude? Hahaha.


Sua experiência não lhe serviu de nada. Você bajulou alguém ou ficou aqui tempo o suficiente para ser promovido. Você venceu pelo cansaço, e seu mérito não passa disso.


Nunca me conformei com a ideia de ter que acatar ordens de alguém inferior a mim (fisicamente e intelectualmente), mas também nunca me conformei com a minha própria ideia de me sentir superior. Tenho medo de deixar que meu proprio ego se infle ao ponto de desdenhar das pessoas e cair na ilusão de que sou excepcional. Eu não sou (lembre-se disso).


Hoje, do alto da minha insignificância, disserto sobre minha frustração. Estou desempregado. Tenho que encarar um mundo em um cenário pandêmico, com recrutadores a beira de um colapso que buscam o inseto mais insignificante pra oferecer a melhor mão de obra barata e qualificada. Terei de me misturar aos insetos; ou será que sempre estive misturado involuntariamente?


Será exigido uma faculdade pra que eu abasteça prateleiras e preencha algumas folhas com uma caneta falhando, que serão guardadas numa pasta de arquivo morto e que ninguém mais vai olhar e nem se lembrar; pro resto da eternidade. Acho que é mais ou menos assim quando a gente morre.

Comentários

  1. Você fala sobre tristeza da forma mais próxima da realidade possível. Ninguém aqui é feliz.
    Acreditar que um processo dará certo é um tiro no escuro tão escroto quanto mijar de luz apagada.
    Mas me disse isso da forma mais prática que eu já vira.
    Não há líder. Há apenas pessoas que ainda não se conhecem. Ser líder não existe, afinal.
    Existem pessoas tristes o suficiente para clamar por ajuda. Ruins o suficiente para clamar por qualquer atenção. E quem os nomeia, está tão perdido quanto nós; que estamos jogados nos cantos dos ambientes em que ganhamos o mínimo.

    Você sabe ser insignificante e essa qualidade vem para poucos.

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