Sobre o Tinder e afins.

Da série de textos que nem parece que fui eu quem escreveu.


Estive no tinder por muitos anos. Sim, vergonhoso né?


Bauman, corre aqui!


Desde que eu fui traído no meu primeiro relacionamento sério (com a minha ex que engravidou de outro cara), eu criei uma barreira intransponível, eu estabeleci um padrão de relacionamento tóxico, e acreditei que isso sempre se repetiria, me tornei uma pessoa medrosa e áspera. Como um animal acoado num canto.


Desde então eu nunca mais consegui chegar em alguém, perdi toda a minha confiança em mim mesmo.


Eu nunca mais consegui confiar em ninguém dentro de um relacionamento, nunca mais consegui me entregar e fazer tudo o que eu podia, sempre com um olhar de desconfiança, sempre cogitando um possível abandono; e você sabe que nenhum relacionamento se sustenta com essas indagações martelando na sua cabeça.


Me vi sozinho e carente, com uma necessidade de ter alguém, mas sem saber e sem conseguir manter esse alguém ao meu lado quando o tinha. Houveram vários “alguens”.


Foi então que depois de ficar um ano deprimido e recluso, meus amigos me fizeram um tinder. Eu me vi numa realidade nova, porém velha também. Eu me via no contexto em que estava inserido, com todas as minhas emoções e traumas, e isso era velho, mas ao mesmo tempo, eu encontrei pessoas na mesma situação que eu (ou até pior), e comecei a entender e lidar com várias pessoas desse nicho, e isso era novo.


Com o passar do tempo, também me tornei uma dessas pessoas, tão obstinado a conhecer pessoas e encontrar alguém, eu passava horas no aplicativo, sempre achando que na próxima deslizada poderia estar o amor da minha vida. Eu tinha conceitos deturpados. Estava desesperado por algo que vem naturalmente.


Percebi que todo mundo que está no tinder tem algum tipo de trauma ou necessidade. São pessoas que estão frustradas, com problema de auto estima e buscando reforçamento social, são pessoas que saíram de relacionamentos recentemente (como foi o meu caso), pessoas que buscam apenas sexo ou que simplesmente estão perdidas, que não sabem o que querem.


Sobre esse último tipo especificamente, são os que sofrem mais, pois “Se você não sabe onde quer ir, qualquer caminho serve”;  nesse jogo você não consegue estabelecer um parâmetro do que você busca e do que te agrada ou desagrada em um relacionamento. Você tem vários “contatinhos” com os quais você não estreita os laços, e com o tempo você se preenche com tanta superficialidade que já não consegue mais sair disso, você se perde no meio de tanta gente, se perde de você mesmo.


Hoje não vivo uma realidade conclusiva sobre isso, e também não posso dizer que sei o que quero, mas estou muito mais sólido tanto na minha personalidade, quanto nas minhas convicções e desejos, e consigo reconhecer pessoas com quem eu gostaria de estar, pessoas com quem eu tenho uma conexão.


De todas as pessoas que conheci por lá, ainda converso com duas, devo ter dado uns 100 “matches” nos 3 anos que usei o aplicativo, e eu não preciso dissertar sobre isso, é auto explicativo. 


Espero que as pessoas que estão por lá consigam se libertar e se encontrar. E não só elas, mas que todo mundo possa se auto conhecer e se libertar desse limbo que traz dúvida, incerteza, insegurança e solidão. Se amem.


Hoje eu vejo que isso de amor, depende muito do nosso empenho, e que não se acha em qualquer esquina, isso surge em relações ímpares e raríssimas, e que devem ser valorizadas quando encontradas. Gente bonita existe aos montes, mas conexão é muito difícil de se encontrar, e quanto mais singular você é, mais difícil se torna essa tarefa. – L. Fernandes (em um e-mail que me enviou em 2020).

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