Cigana.
eu não estou acostumado
ao repouso
ao relento
ao descanso
eu não estou acostumado com facilidades
com caminhos curtos
com ganhos
ou com a ausência das perdas
nunca de bem, sempre de mal
sempre saudoso
sempre saudade
sempre solidão
sempre amargura
sempre tristeza
sempre paredes
sempre teimosia, resistência
é comum que seja barrada na entrada
gosto muito de você, mas eu não te convidei
estou dando uma festa, uma bosta de festa, estou sozinho no salão ouvindo músicas de bosta
e você não foi convidada
você pula os muros, suborna os mecanismos de defesa (digo, os seguranças)
suborna o vento
suborna os olhos e os ouvidos
principalmente para os olhos e ouvidos, sussurra palavras macias, me mostra girassóis coloridos e radiantes
o cheiro de carne de porco se espalha pelo ar, você suborna meu olfato com seus dotes
você joga meu jogo, mas tem suas próprias peças, você viciou os dados e o tabuleiro
sempre ganhei esse jogo?
mas você tem novas regras
logo, minha pequena ilha está dominada pelo seu exército de uma única feiticeira cigana
com seu vasto conhecimento arcaico
com seu repertório de um milhão de livros
com seu repertório de um milhão de feitiços
me enfeitiça. estou enfeitiçado. inferno. que seja.
quero muito que você entre na festa, tinha medo que alguém que não fosse digno entrasse nela. só isso.
seu poder tem um preço, você está doente, está morrendo
ora
todos estamos
mas eu sofro da mesma doença
no fim das contas você descobre que eu também sou um feiticeiro
estamos morrendo da mesma causa
você pode me salvar
mas não sabe como, se pudesse, também estaria salva
seu conhecimento não é vasto o suficiente; não é?
poderíamos retirar os feitiços um do outro?
quantos poentes mais contemplaremos?
com seu vestido da cor dos girassóis, seus olhos acompanham o sol também
você é um girassol.
linda.
não quero mais estar só
não é como se precisasse
não quero morrer agora
dá-me um último beijo
quem sabe... oitocentos últimos beijos
por que tem de ser o último?
você sabe bem.
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