Esta história não é sobre o protagonista desta história.

Aviso: Leitura de cerca de 20 minutos.


02/04/2020 - Quinta – Feira.

 

- Bom dia Sr. Vieira! Já está de saída? Algum pedido especial para o jantar de hoje? Ou vai ser o de sempre mesmo?

- O de sempre Gustavo.

- Ficamos combinados. E novamente lhe desejo um bom dia.

Observo atentamente o Senhor Vieira sair do Edifício. Todos estão olhando pra ele, ao seu redor há uma atmosfera de poder e inteligência, nos meus 3 anos trabalhando neste hotel, eu nunca vi alguém tão imponente. Pouco se sabia sobre ele, não recebia visitas, não falava com ninguém, não se sabia de amigos, familiares, namoradas, nada.

O garoto que carrega as melas recentemente contratado me pergunta:

- Quem é ele?

Me ajeito sob o balcão e cubro o contorno da minha boca com as costas da mão, um gesto de quem vai contar um segredo cochichado.

- Trate-o por “Senhor Vieira”, nós (funcionários do hotel), apenas sabemos que ele é um homem muito rico, está hospedado aqui no hotel desde 2015. Um dos nossos melhores hóspedes.

O Sr. Vieira conhecia o dono do hotel e havia negociado com ele; pagava por mês. Tudo sobre ele era curioso, todo mundo queria saber mais. Ele passava horas fora do hotel, pedia o mesmo prato quase todos os dias, suas roupas eram lavadas, passadas e dobradas semanalmente. Todos os dias pegava a chave de um dos seus carros com o manobrista e só voltava de noite (ele tinha três carros na garagem), as camareiras limpavam sua suíte a cada 3 dias e as únicas visitas que ele recebia eram de seu médico e seu barbeiro.

Certa vez, um ex-funcionário do hotel que estava de folga não conseguiu conter sua curiosidade e seguiu o Senhor Vieira, descobriu que ele tinha ido até um prédio comercial, um dos maiores da cidade, acreditávamos que ele fosse algum tipo de executivo, dono ou talvez sócio de alguma grande empresa. Ninguém nunca se atreveu a perguntar.

 

06/04/2020 – Segunda – Feira.

 

- O que é este prato?! Está horrível! Mal montado! Precisa ser refeito imediatamente!

Silêncio absoluto na cozinha, exceto pelo som de carne sendo flambada ao fundo e do óleo quente borbulhando.

Um jovem dá um passo desajeitado e tímido e com a cabeça baixa e em tom equivalente diz.

- Senhor, peço desculpas, sou novo aqui, fiz o prato de acordo com o que eu fazia no restaurante em que eu trabalhava antes, ninguém me disse que deveria ser feito de outra forma.

Augusto leva a mão rosto e faz um gesto de negação. Respira fundo. Teria uma crise de pânico em instantes se não se controlasse.

- Como você se chama jovem?

- Pierre Senhor.

- Certo Pierre, vamos lá. Eu não te conheço ainda, e vai odiar ter me conhecido. Eu sou Augusto, sou o Chefe dessa cozinha já tem 15 anos. Você provavelmente foi contratado pelo meu substituto enquanto estive afastado recentemente, portanto, vamos aos fatos.

Esse prato, vai para o Senhor Vieira, ele é o nosso cliente mais fiel, vem almoçar aqui todos os dias já tem anos, e isso PRECISA estar da mesma forma, TODAS AS VEZES que ele vier aqui.

Ele sempre vem no mesmo horário, de segunda a sexta, ele não fala com ninguém, já tem uma mesa reservada, já sabemos o que ele vai querer comer, portanto deixamos o prato pronto no horário certo, pra que esteja quente e com a textura ideal quando ele chegar.

Por ser a sua primeira vez com essa situação, eu vou te mostrar como se faz, nada pode ser diferente, tudo medido grama por grama, os mesmos fornecedores, o mesmo sabor, a mesma textura, a mesma proporção e disposição no prato. Hoje eu faço, e a partir de amanhã, isso passa a ser sua responsabilidade; estamos entendidos?

- Sim senhor.

Pierre observa atentamente Augusto cozinhar. Augusto sabe instintivamente aonde está cada coisa naquela cozinha, sem olhar, estica as mãos e alcança ingredientes e utensílios, é como se flutuasse, o aroma no ar é delicioso, é como se um deus estivesse cozinhando ali, com uma maestria incomparável.

Augusto tinha recebido prêmios internacionais e entrado num ranking em 2004 como um dos melhores e mais inovadores chefes de cozinha. No mesmo ano, devido a sua enorme presença em programas de TV e em eventos sociais acabou desenvolvendo síndrome do pânico e se afastando da cozinha. Foi contratado em 2005 pelo mesmo restaurante que trabalhava há 15 anos, um restaurante 5 estrelas no centro da cidade. Depois disso só teve algumas crises esporádicas.

Quando Augusto termina o prato, todos param para olhar e apreciar, na bandeja se encontra um medalhão de filé mignon ao molho de vinho tinto decorado com ervas finas, sobre uma porção de purê de batatas com uma consistência impecável, uma porção de arroz branco (também decorado com ervas), uma porção de feijão com um caldo cremoso e filé de peixe grelhado.

Pierre admira tudo aquilo com um brilho nos olhos.

- Aprendeu como se faz Pierre? Isso é sua responsabilidade agora. Não costumo colocar a mão na massa.

- Sim senhor. Mas senhor, posso perguntar uma coisa?

- Não vou ensinar de novo. Pergunte.

- Senhor, estudei cada receita no cardápio, treinei cada uma delas pelo menos duas vezes... Não me lembro de ter visto esses pratos lá. Digo, somos um restaurante fino certo? Por que alguém pediria arroz e feijão pra comer?

- Eis um mistério para o qual nunca teremos respostas. Todo mundo aqui já se questionou sobre isso. Deixe isso de lado e preocupe-se em reproduzir esses pratos exatamente dessa forma. E VOCÊS, DE VOLTA AO TRABALHO, VAMOS!

O garçom pega a bandeja e se dirige ao salão. Indo até a mesa do Senhor Vieira.

- Bom apetite senhor.

 

11/04/2020 – Sábado.

 

Era sábado, eu tinha uma consulta marcada com o Senhor Vieira, um dos meus pacientes mais fiéis e antigos, também era um dos mais saudáveis. Tudo estava pronto na minha maleta. Sairia em 20 minutos.

Senhor Vieira tinha uma saúde de Ferro para os seus 43 anos, normalmente nossas consultas aconteciam uma vez por mês, com algumas consultas eventuais por conta de algum resfriado ou algo do gênero.

Eu sempre chegava pela manhã, “meu primeiro compromisso é sempre com a saúde” dizia ele todas as vezes em que falávamos sobre o horário ou sobre o tempo.

Apesar de atendê-lo por muitos anos, muitas coisas me intrigavam, como o fato de não haver ninguém próximo, como o fato de ele sempre me pagar em dinheiro, como o fato de não haver nada decorativo em seu apartamento que revelasse qualquer gosto ou traço de personalidade, tudo sempre organizado, limpo, neutro. Era impossível estabelecer qualquer pré-concepção sobre seu Vieira.

Hora de sair. Pego minhas coisas e pego o caminho mais curto, desvio de alguns engarrafamentos, não importa que eu chegue mais cedo, espero até a hora marcada pra tocar a campainha, é importante que eu seja extremamente pontual.

Ele abre a porta, está vestindo um smoking preto, camisa branca, impecável.

- Olá Sr. Vieira, como vai essa saúde? – Era sempre a mesma saudação, eu sempre ficava nervoso, mesmo o atendendo a anos, ficava desconfortável com essa “quebra de gelo” todas as vezes.

Ele me fez um gesto para que eu entrasse, nos sentamos na mesma mesa de sempre. Minha experiência trabalhava por conta própria, medi sua pressão, tirei algumas amostras de sangue, aferi sua temperatura, escutei seu pulmão e seus batimentos com o meu estetoscópio, apalpei várias regiões de seu corpo em busca de anormalidades, olhei sua pele, procurei qualquer sinal de qualquer coisa, tudo nos conformes.

- Sr. Vieira, tudo certo com a sua saúde, eu apenas sugiro ao senhor que busque se exercitar um pouco mais, consigo prever alguns pequenos problemas nas suas articulações que podem muito bem serem evitados se começarmos agora. A ingestão de vitamina C e algumas proteínas magras como ovos, carne de frango e peixe podem ajudar.

Ele me agradece, pega sua carteira, me paga em dinheiro, reparo que sua carteira ficou vazia, ele tinha a quantia exata para me pagar, será que ele ia ao banco sacar dinheiro? Isso era perigoso! Será que ele tinha um cofre em casa? Bom, isso não é da minha conta.

Pego o dinheiro e faço uma leve reverência.

- Obrigado Sr. Vieira, vou levar as amostras de sangue para análise e te envio os resultados por e-mail, caso haja mais alguma consideração a ser feita sobre o resultado da análise, mandarei no corpo do e-mail. Sinta-se livre para me ligar ou me avise que marcamos de eu passar aqui para qualquer esclarecimento.

 

24/06/2020 – Quarta – Feira.

 

- Já tá rolando?

- 5 segundos para ir ao ar, entraremos ao vivo.

Me aprumo e me preparo para entrar no ar.


 “Olá, você está no canal 9, o seu canal de notícias. Um bom dia a todos que estão assistindo.

Na manhã de hoje, uma ambulância veio ao edifício tristeza para levar uma pessoa ao hospital.

Aparentemente a vítima foi encontrada no chão por uma funcionária do edifício que era responsável por fazer a limpeza do quarto da mesma. A vítima é um homem de 43 anos conhecido como Sr. Vieira, que aparentemente teve uma parada cardíaca na noite de ontem e outra pela manhã.

Ele é um dos maiores empreendedores da cidade, possui ações em várias empresas internacionais, participa indiretamente da política incentivando projetos de leis que favorecem a população mais pobre da cidade, injeta dinheiro em hospitais públicos locais, instituições de caridade e ajuda a financiar vários projetos que buscam a cura para o câncer. Além disso, trabalha em um escritório de advocacia e faz trabalho voluntário aos domingos resgatando animais que são abandonados nas ruas.

Isso foi tudo que descobrimos sobre ele, mas agora sabemos que este homem é um verdadeiro herói e estimamos a sua melhora.”


“O Sr. Vieira é nosso hóspede há anos, nunca vi este homem tossir uma vez sequer, tem uma saúde de ferro, é educado, gentil e muito batalhador.” – Gustavo; gerente de hospedagem do Edifício Tristeza.


“Cuido do Sr. Vieira há anos, atendo ele em consultas particulares periódicas. Nunca houve um indício de que ele pudesse ter uma parada cardíaca, mas isso também pode acontecer de forma inesperada. Estou indo ao hospital para acompanhá-lo de perto e entender melhor esse acidente.” – Dr. Guilherme; médico particular do Sr. Vieira.


Termino de ajudar a guardar o equipamento de filmagem.

- Acho que mandamos bem nessa hem Pedro!

- Você estava ótimo ao vivo Felipe, não deu nem uma gaguejada, o miserável é um gênio.

Eu era formado em Jornalismo e já atuava na área há 5 anos, consegui um emprego no canal 9 e desde então, tinha feito ótimas matérias e aparições ao vivo, eu gostava de entrar na van com o meu parceiro Pedro e sair em busca das maiores eventualidades esperando para serem noticiadas. Todo mundo dizia que eu poderia trazer vida e magia até mesmo a um evento trivial como a queda de uma folha.

O segredo estava nas informações, tudo tinha uma metodologia a ser seguida, você recolhe o máximo de informação que puder, verifica a veracidade delas, organiza tudo, sintetiza e simplifica para que tudo caiba no tempo de uma reportagem, e depois, basta ensaiar e transmitir tudo de forma clara, objetiva abusando das expressões faciais, entonações de voz e gestos com as mãos.

Sou um especialista em comunicação, já tinha entendido como isso funcionava, as pessoas estavam famintas por informações, acontecimentos sobre desconhecidos, e eu dava isso pra elas.

Aposto que daqui a algumas semanas, muitas pessoas terão esquecido o tal do Sr. Vieira, e eu estarei por aí, falando sobre alguma outra tragédia. É assim que as coisas são.

- Bora comer no Mcdonald's hoje? Tô com fome e preciso me alimentar bem, afinal, mais tarde vou comer a gata da Letícia do setor de edição.

 

26/06/2020 – Sexta – Feira.

 

- Que cenário triste meu amigo, se é que me permite chamá-lo assim.

Bem, já que somos apenas eu e você aqui, permita-me iniciar o meu monólogo, me sinto mais confortável assim enquanto cavo.

Lido com situações como essa todos os dias, lido com a tristeza em um de seus estados mais profundos, com a fragilidade humana, com a terra e com os vermes, com lágrimas, com ternos e abraços, faça chuva ou faça sol, estarei aqui com a minha bota, minha luva, minha pá e minhas silenciosas condolências.

Hoje não sou silêncio; é a primeira vez que não vejo uma pessoa sequer em um enterro. Você não era querido? Nenhum parente vivo? Nenhum amigo? Isso me deixa curioso ao seu respeito amigo, será que você era um daqueles caras egocêntricos, mesquinhos e metidos que acham que não precisam de ninguém? Será que você era uma pessoa boa mas com dificuldades de interagir? Será que você se sentia sozinho?

Sabe, lido com gente assim o tempo todo, filhos que vem enterrar seus pais e acham que seu dinheiro pode comprar covas privilegiadas, embaixo de árvores, covas maiores e mais espaçosas, eu recebo para limpar lápides e trazer as melhores flores para decorar as memórias eternizadas nesse lugar. Algumas pessoas acham que o dinheiro pode comprar tudo, mas ele só gera interesse, o dinheiro é sujo.

Outra coisa que eu vejo muito aqui, é ser tratado com descaso, ninguém olha pra mim, eu sou um figurante, ninguém sabe que me chamo José Carlos, que tenho uma filha de 8 anos e que levo flores ao túmulo da minha amada e eterna esposa.

Mas todos precisam de mim.

Eu faço um serviço sujo, um serviço que poucos se habilitam a fazer, e nem recebo tão bem, mas sei muito sobre a vida graças a isso, sei mais ainda sobre a morte; esse é todo o reconhecimento de que preciso.

Eu acho que todo mundo deveria ser reconhecido igualmente sabe? Todos somos importantes e necessários e ninguém vive sozinho, existem vários Gustavo’s, Pierre’s, Pedro’s, Gulherme’s e Felipe’s por aí. Cada um com a sua singularidade, cada um com suas qualidades e defeitos, cada um com seus problemas. Acho mágico como cada realidade conversa com outras realidades, como interesses podem ser compartilhados, como uma boa música pode ser apreciada por multidões, como estamos expostos aos mesmos riscos e doenças, como todos temos sangue correndo em nossas veias, independente da cor da pele, da orientação sexual, religião ou posicionamento político.

Aliás, nunca entendi muito bem o porquê de brigarmos tanto uns com os outros por divergência de opiniões e intolerância. O EGO humano é realmente uma coisa complicada de lidar não é mesmo? Especialmente se armado com poder.

Acredito que nenhum de nós seja tão protagonista assim, apesar de uns serem mais influentes que outros, somos todos coadjuvantes da história da humanidade, dentro do mesmo barco, que tem por destino a morte.

Enfim, já falei demais amigo, me desculpe, acho que realmente estou ficando velho e gagá. Confesso que me aproveitei do seu silêncio para que me ouvisse.

Afinal, quem mais daria ouvidos as asneiras que um coveiro tem a dizer?

Descanse em paz Sr. Vieira.

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