Jessy.
AVISO: LEITURA LONGA!
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Aos poucos ela começa
a tomar forma.
Eu estava no trabalho,
digitando um bilhão de dados estatísticos, minha cabeça era um vulcão prestes a
entrar em erupção, mas eu estava acostumado, meus olhos se moviam rapidamente e
meus dedos correspondiam rápida e precisamente aos meus comandos, entre uma
dose de café e outra, eu sempre entregava meu serviço no prazo. Era
relativamente fácil.
Hora do almoço, como
sempre estou sem fome, tenho feito uma refeição por dia, magro como um
espantalho aidético. Acendo um cigarro e fumo lentamente, olhando as pessoas
passando; dispersas, com suas maletas e seus sobretudos, submersas em seus
subconscientes, com a cara enfiada em seus smartphones. Dois homens se esbarram
de frente e os pertences de um deles caem no chão, os dois ficam desconcertados
e mal sabem como reagir, parece que sofreram lobotomia.
Faz frio, mas eu
sempre sinto frio, mesmo no calor, estou com o meu moletom todo preto de
sempre. Já fui pauta de uma reunião na empresa, uma reunião sobre postura e
apresentação pessoal, aparentemente eu era o único que não trabalhava de terno
e gravata, mas era o único que trabalhava. Eu estava naquela empresa há anos,
porque eu era um dos hackers mais competentes disponíveis na região, eu não
seria mandado embora, porque era muito valioso. Logo, pra descontentamento
geral, uma exceção foi criada pra mim. Fodam-se seus incompetentes. Agraciado
com privilégios por fazer o mínimo.
Peguei meu celular e
abri uma rede social de relacionamento, era a única rede social que eu usava,
queria muito uma namorada. Infelizmente era sempre a mesma história, mulheres
devassas fingindo serem normais, procurando uma vítima pra despedaçar. Todas
com traumas de ex namorados, um corpão estereotipado ou cabelos coloridos.
Nenhuma conexão real, eu era uma opção dentre muitas; um 0 entre 0’s e 1’s.
Eu não sabia porque
ainda usava o aplicativo, mas era como se eu esperasse alguma coisa, maldita
esperança, eu não consigo me livrar dela. Eu sabia que no fundo nunca
encontraria alguém que correspondesse as minhas expectativas.
Foi então que a vi.
Ela estava
atravessando a avenida, mas estava fora da faixa de pedestres, e o farol estava
aberto para os carros, ela vinha na minha direção me olhando fixamente, estava
com uma bota de couro, uma calça preta de sarja, blusa preta e jaqueta de
couro, seu cabelo era metade azul e metade branco, tinha olheiras tão grandes
quanto as minhas, mas lhe caiam muito bem, não usava maquiagem, era
naturalmente e assustadoramente linda.
Fiz menção de
levantar, eu nem sabia o que diria, mas foi como se meu corpo agisse por conta
própria, como se eu tivesse sido enfeitiçado pelo seu charme, um canto de
sereia. Foi quando um ônibus veio na direção dela e a atropelou. De dentro de
mim veio um sonoro e gutural “NÃO!”- todos me olharam como se eu fosse um
maluco, e estavam certos, olhei pra onde ela estivera antes e não tinha
ninguém, nada, não tinha sangue. “Que porra é essa?” – Pensei.
Voltei a trabalhar
mas aquilo não saia da minha cabeça, eu estava obcecado, e eu me conhecia, eu
só iria parar quando a encontrasse.
Meu expediente nunca
demorou tanto pra acabar.
Cheguei em casa o
mais rápido que pude, acendi meu cigarro e fui procurar por ela. Chequei em
redes sociais, busquei em bancos de dados, tentei reconstruir o que eu lembrava
da sua face no photoshop... Nada; que inferno! Quem é você garota?
██░░░░░░░░ 20%
O restante da semana
foi monótono. Resolvi aceitar que não encontraria a garota através dos meus
meios, teríamos de nos encontrar pessoalmente. Por conta disso, todos os dias
no mesmo horário, me sentava no mesmo lugar e esperava... Ficava ali, fumando o
meu cigarro, questionando a minha sanidade, pensando no quanto eu precisava de
uma companheira.
Depois de um mês
inteiro eu já tinha desistido, quase não pensava mais nela, tinha uma
possibilidade de promoção no serviço, e eu estava fazendo de tudo por ela,
adoraria ganhar mais, apesar de saber que meu potencial ia além daquela empresa
ridícula, era uma boa distração. Eles precisavam de mim, eu me sentia
enaltecido. Além disso, ela me proporcionava uma rotina, assim eu não ficava em
casa me drogando e pensando em formas de me suicidar.
Era uma tarde
ensolarada, eu odiava sol. Havia um clima de felicidade e satisfação no ar, as
peles das pessoas estavam brilhantes e hidratadas, sorrisos por todos os lados.
Que saco.
Fui até a loja de
doces da esquina, senti vontade de comer um chocolate e comprei, porém iria
guardar pra mais tarde; saí pra fumar um cigarro. Alguém puxou a manga da minha
blusa:
- Ei, me empresta o
isqueiro?
Eu estendi a mão com
o isqueiro na palma, mas não olhei pra quem me falava, estava olhando a tela do
meu celular, tinha uma mensagem do meu chefe pedindo pra eu voltar, era algo
urgente.
A voz feminina puxou
a minha manga mais uma vez:
- Ham, se não for
abusar muito... Você não me arruma um cigarro também? Descobri agora que o meu
maço acabou.
Dessa vez eu olhei; e
empalideci. Por 3 segundos eu vi minha vida passar diante dos meus olhos, meu
coração parou, minha pressão caiu, minhas mãos transpiraram, meu cigarro caiu
da ponta dos meus dedos. Caralho, era ela!
Novamente meu corpo
agia sozinho, saí do transe e estendi o maço pra ela, sem conseguir dizer nada,
estava catatônico.
- Obrigado, você é um
cara legal.
Ela acendeu o
cigarro, me devolveu o maço e o isqueiro e foi embora. Consegui juntar toda a
minha energia e gritei:
- Espera! Como você
se chama?
Ela sem se virar
levantou o braço que tinha um relógio e apontou pra ele, em seguida apontou
para um arranha-céu. Acho que quis dizer que estava atrasada, e eu também!
Pelo menos agora tinha um norte, eu podia encontrá-la. Te peguei!
████░░░░░░ 40%
Depois daquele
ocorrido pesquisei tudo relacionado a aquele edifício. Todos os nomes de todos
os moradores, todas as empresas que alugavam as salas, nomes dos funcionários
das empresas, nome dos pacientes de 2 psicólogos que tinham consultório no
edifício, o nome dos funcionários terceirizados responsáveis pela limpeza e
segurança do lugar, dos cozinheiros, ascensoristas, manobristas, e até em
último caso, consegui nomes dos parentes de primeiro grau dos moradores de lá
(mas guardaria isso como uma carta na manga, apostaria em todas as outras possibilidades primeiro).
Certo, agora só
precisava eliminar da minha lista, homens, crianças, idosos, e filtrar o que
sobrou pra encontrar mulheres brancas com cerca de 1,65 de altura, parecia
fácil. Como ela deu a entender que estava atrasada, pressupus que ela
trabalhasse por lá ou tivesse hora marcada com psicólogos ou advogados que
atendiam lá, isso já me ajudava.
Minha obsessão me
consumia, acabava com o meu tempo, com os meus maços de cigarro, com o pó de
café e as garrafas de conhaque. Às vezes eu também cheirava pra conseguir me
manter acordado por dias, mas isso acabava comigo, evitava.
Todo esse esforço em
vão. Essa filha da puta era como um fantasma, sem registros, sem identidade,
sem documentos, será que ela também era hacker? Será que tinha conseguido sumir
das bases de dados?
Depois de um mês de
caça incansável eu acabei deixando isso um pouco de lado (embora eu passasse
horas no aplicativo de relacionamento esperando que ela estivesse na próxima
deslizada).
Eu havia conseguido a
promoção no serviço, estava ganhando mais, não fiquei tão feliz quanto imaginei
que ficaria, agora eu tinha mais dinheiro pra comprar cigarro e drogas,
dinheiro realmente não traz felicidade, principalmente se você não tem paz e/ou
tem alguma psicopatologia.
Minha vida seguia entre os vícios,
minha vida profissional plástica, noites sem dormir e minha obsessão irreal.
Que vida bosta né?
███████░░░ 60%
Cedendo as minhas
necessidades mais primárias, marquei um encontro com uma garota muito estranha
que eu havia conhecido, bonita o suficiente pra elevar meu ego e louca o
suficiente pra sair com um cara que não conhecia e transar com ele sem nenhuma
interação.
A campainha tocou, eu
abri, ela entrou, tirou a roupa, me beijou, me chupou, fizemos um dos sexos
mais violentos da minha vida, ela me arranhou inteiro, me deixou marcas roxas,
eu espanquei a bunda enorme dela como nunca antes, puxei seus cabelos com força
suficiente pra quase arrancá-los do couro cabeludo, enforquei ela beirando a
asfixia, empurrei a mão contra sua caixa torácica com tanta força que sentia
sua respiração pesada, se eu forçasse um pouco mais seu peito explodiria.
Gozamos juntos. Foi surreal. Ela acendeu um baseado, me ofereceu, eu disse que
não queria.
Ela levantou, disse
que precisava ir embora, se vestiu em um minuto e meio.
- Tenho seu telefone,
qualquer hora te ligo. – Abriu a porta e saiu.
Eu estava sentado na
poltrona pelado com as pernas cruzadas e um cigarro entre os dedos.
- Espera, seu nome é
realmente Clara?
Ela gritou do
corredor:
- Foda-se. Faz
diferença?
Não fazia.
Foi um silêncio
doloroso de ser suportado. Eu não esperava nada diferente, mas aquilo era
doloroso, eu estava realmente sozinho, aquela presença devastou meu
apartamento, me satisfez, transou como uma maníaca e me largou ali, usamos um
ao outro, e agora meu peito tinha um buraco maior do que antes, dava pra enfiar
a mão através dele.
Não suportei ficar
sozinho ali comigo mesmo, olhei pra mesa de centro e vi que só tinham dois
cigarros, não ia rolar, coloquei um shorts folgado e saí pra comprar quase nu,
eu não tinha mais pudor, pra ser sincero, nem me importaria se eu fosse preso à caminho do bar.
Não fui. Tal era minha insignificância que aparentemente nem a polícia se interessava no meu atentado ao pudor.
Cheguei em casa e acendi um cigarro, tossi e saiu sangue; ótimo, estava no caminho certo.
De repente a
campainha tocou, será que aquela maníaca tinha esquecido alguma coisa?
Eu abri e perdi todo
o restante da força que me restava.
Ela estava ali, na
minha porta, me encarando com aqueles olhos castanhos, calça e jaqueta jeans, o
cabelo agora era um loiro bem claro (quase branco), delicadamente magra, rosto
com traços finos e uma expressão curiosa e tranquila. Deus, eu estava
completamente apaixonado.
- Oi. – Ela disse se
levantando na ponta dos pés de forma nervosa. Mexeu no cabelo e olhou para os
lados. – Eu posso entrar?
Eu estava quase
babando. Seminu.
- Como você...
Digo... Você... Espera. – Ergui o dedo indicador e fechei a porta. Desespero.
Coloquei uma calça
jeans e uma camiseta, lavei o rosto, joguei a camisinha usada na privada, abri
as janelas, comi um pouco de pasta de dente e chutei todas as roupas que
estavam jogadas no apartamento pra debaixo do sofá. Tudo isso em cerca de 25
segundos.
Abri a porta
novamente tentando controlar minha respiração e meus batimentos.
- Oi, entra. Me
desculpa, eu não estava vestido.
Ela entra e olha
direto pra pia da cozinha. Desgraça.
- Alguém aqui gosta
de lavar louça hem? – Deu um sorriso sarcástico e lindo. Não conseguia ficar
irritado, por quê?
Mas aquilo tudo
estava me incomodando.
- Olha, quem é você?
Como descobriu meu endereço? Você não vai me trazer encrenca não né? – Coloquei
as mãos na cintura.
- Uau, quantas
perguntas! – Ela franziu a testa e levantou as sobrancelhas, seu rosto falava,
era vivo, suas expressões me prendiam. – Me chamo Jessy. Eu estava voltando do
trabalho quando vi um maluco com um shorts folgado e o pau balançando dentro
dele, te reconheci do outro dia e meio que te segui... Me desculpa, tem algum
problema eu ter vindo?
Que história
estranha. Tudo estranho. Mas se tratando da minha vida eu não estava surpreso,
eu havia procurado ela por meses, e ela estava na minha frente agora, o que eu
faria?
- Eu te procurei por
todo canto. Esperava no mesmo lugar todos os dias no mesmo horário, esperando
te ver de novo. Cheguei até a passar no prédio que você apontou, te descrevi
pro porteiro e ele disse que nunca havia visto ninguém com aquele perfil.
Quem... é; você?
Ela me olhou como se
já soubesse, era muito calma e paciente. Muito.
- Eu sou enfermeira
particular nas horas vagas, estava indo cuidar de uma senhora que mora naquele prédio, vou lá
todas as quartas feiras no mesmo horário. Confesso que também te procurei com
os olhos por um tempo, mas eu desisti depois, era impossível te achar.
Eu tinha deixado essa
janela passar. Porra. Minha busca não tinha sido tão eficiente, precisaria
melhorar isso, essa possibilidade sequer tinha passado pela minha cabeça.
- Você tá com fome?
Ela assentiu com a cabeça.
- Vou pedir uma pizza
pra gente, pode ser? Você está com pressa?
- Só se for de frango
com catupiry e bacon.
- Bordas recheadas?
- E um refri.
Sorrimos. Bizarro.
O apartamento agora
estava preenchido. Era como se ela tivesse não só acabado com o silêncio, mas
matado ele. Como se ela tivesse mandado os demônios ficarem quietinhos sentados
lá fora, porque não queria dividir o espaço do apartamento com eles.
A pizza chegou, a
noite seguiu, ela era linda, sua voz era doce e suave, era engraçada, estranhamente
sabia sobre quase tudo que eu gostava, tínhamos interesses parecidos, falamos
sobre muita coisa, não houve um silêncio grande o suficiente, eu sentia vontade
de conversar, de saber mais sobre ela.
Ela perguntou se
podia dormir lá porque estava tarde e ela tinha medo de sair. Me ofereci pra
levá-la em casa mas disse que poderia ficar caso quisesse.
- Tem uma toalha
limpa? Preciso de um banho.
- Se importa de
dormir no sofá?
- Se importa que eu
durma na cama com você?
Empalideci, quanta
atitude.
- Ham... Não, pode
dormir. – Disse com a voz falha. Que porra era aquela? Eu estava nervoso?
- Relaxa bobinho. –
Ela gargalhou. – Olha pro seu sofá, se eu dormir ali eu acordo torta pro meu
plantão de amanhã. – Disse apontando com uma cara de deboche.
Realmente, meu sofá
estava caindo aos pedaços.
Naquela noite,
dormimos juntos, eu não senti vontade de tocá-la uma vez sequer, a admirava
dormindo, como uma criança, um sono delicado e profundo, como se sonhasse com
um mundo de doces e bichos fofinhos. Peguei no sono olhando pra ela. Qual a
chance disso acontecer comigo? Algo dando certo? Minha autossabotagem me
alertava e eu não queria ouví-la, não naquela noite.
████████░░ 80%
Aquela noite mudou
minha vida.
Eu não me importava
com o fato de Jessy ir pra minha casa todos os dias, na verdade, se ela não ia,
eu ficava extremamente triste, e por incrível que pareça, ela também. Decidimos
que ela traria suas coisas pra morar comigo, dividiriamos o aluguel, as tarefas
e poderíamos passar nosso tempo livre juntos.
Eu me sentia um cara
normal, fomos no starbucks, no cinema, em parques, em bares, eu sorria e me
sentia vivo. Tinha diminuído os cigarros e parado completamente com as drogas.
Minha coleção de
livros estava ao lado da coleção de cd’s de rock dela agora, roupas no armário
separadas por cor, pia sempre limpa e adotamos um gato.
Raramente
discutíamos, sempre que acontecia era por algum motivo bobo e logo tudo ficava
bem e ríamos de algum meme idiota. O motivo mais recorrente de brigas era
porque ela sempre esquecia de alimentar o Chester Bennington (decidimos dar
esse nome pro gato) e também nunca limpava a caixa de areia dele. Mas como ela
raramente conseguia tempo livre eu fazia tudo em casa, eu tinha um horário mais
flexível e não via problema em fazer tudo. Só fazia questão de tudo estar
perfeito pra que quando ela chegasse pudessemos jantar e ela me contar sobre o
dia estressante dela.
Eu fiz uma massagem nas costas dela,
ela estava relaxada, fui descendo minha mão lentamente, ela estava arrepiada,
meus dedos encontraram sua região íntima, eu a amava lentamente, beijos
molhados e ofegantes, respiração pesada, toques leves, movimentos ora lentos
ora rápidos, sempre contínuos, ela segurava meu rosto com as duas mãos
e me olhava, seus olhos pediam mais e me amavam, me desejavam intimamente. Eu a
amava mais que tudo, mais que a mim mesmo.
Jessy sempre ficava
em casa comigo, não se importava com o fato de eu ser antissocial, por conta
disso, nunca fez menção de me apresentar seus amigos, e sua família morava em
outro estado, a minha estava morta. Ótimo, eu odeio essas ocasiões. Era tudo
perfeito.
Eu iria começar a
passar com o psiquiatra pra tratar da minha depressão, tinha tomado essa
iniciativa, queria ficar bem pra ela, por ela. Decidi que iria contar pra ela
depois que fosse em algumas sessões e sentisse firmeza.
Pra resumir, depois
de algumas sessões e exames, o psiquiatra me disse que eu precisava tomar uma
medicação, um medicamento manipulado que tinha uma mistura de Clozapina e
Zyprexa. Disse que era importante que eu tomasse e que eu poderia começar o
tratamento o quanto antes.
Eu comecei no mesmo
dia. Estava feliz. Tudo iria melhorar. Mal podia esperar pra contar pra Jessy.
Tomei o remédio e
deitei pra dormir um pouco, ela teria plantão naquela noite e chegaria de madrugada. Coloquei o celular pra despertar, acordaria um pouco antes de ela chegar e
esperaria para contar tudo; eu estava ansioso.
█████████░ 90%
Acordei na manhã do dia seguinte com o Chester me arranhando o
rosto.
Tinha algo diferente no ar, eu me
sentia mal, diferente, seria o efeito do remédio?
Levantei, e comecei a andar pelo
apartamento... Que porra era aquela?
Não havia nada, os cd’s, as roupas
dela, a escova de dentes, os tênis, tudo havia sumido.
O que eu havia feito? Será que a tinha
magoado? Ela foi embora sem me avisar? Por quê?
Com um nó imenso na garganta vou em
direção a minha prateleira, tem um quadro nela, com uma foto tirada no dia que
fomos no cinema pela primeira vez. Estou sozinho na foto?....
Do lado do quadro tem um papel; um
diagnóstico médico... Esquizofrenia Paranóide...
Tudo começa a se encaixar, eu
cambaleio, sento em posição fetal no canto do apartamento, choro. Choro por 40
minutos. Nada fazia sentido, só sentia dor, solidão, o vazio tinha voltado, eu
poderia passar inteiro por ele agora, sem precisar me encolher.
Caminho lentamente, como se as memórias
residuais fossem sendo revividas uma última vez, e depois fossem apagadas, pra
sempre.
Nada mais era real.
Não darei detalhes do que fiz. Mas
posso dizer que teve haver com o frasco de remédios e alguns produtos de
limpeza.
Me lembro de espumar pela boca, de
bater a cabeça na quina da mesa de centro, e do Chester miando alto.
Droga, quem iria alimentá-lo agora?
Deixo de existir com a foto de perfil dela, que era nítida e clara na minha cabeça.
██████████ 100%
❚File uploaded ❚



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