Oi, eu sou o Caio.
Hoje estou de
folga, vim ao centro de São Paulo pra ouvir música e pensar um pouco na vida.
Tenho certeza
que todo mundo já teve pelo menos um momento assim, em que você para e observa,
pensando sobre tudo, sobre todos, sobre a vida, não tem nada de fora do comum
nisso, pra ser sincero, acho que muitas pessoas estão saturadas de pensar na
vida e não encontrar um sentido nela.
Eu também
estou. Mesmo assim, não deixo de pensar.
Eu não sou bom
com matemática, não era um bom aluno na escola, nunca fui incisivo, preciso,
exato. Me sinto sempre no contorno da vida, sempre forçado a seguir por alguma
rota alternativa, aprendi a me virar com incontáveis planos B.
Quando eu era pequeno fazia xixi na cama e tinha medo do escuro. Gritava pelos meus pais de madrugada, aprendi a lidar com o abandono cedo, na verdade, eu nem sabia que meu pai tinha me abandonado, minha mãe dizia que ele tinha ido trabalhar na roça, e eu sempre esperava ele voltar. Até hoje ele não voltou.
Me submetendo
a subempregos por preguiça de estudar a vida toda e morrer trabalhando,
evitando discussões por preguiça de argumentar, aliás, eu nem tenho
posicionamento sobre nada, deixo isso pra quem tem boa oratória e persuasão,
também não sou bom nisso. Foco em tentar ficar vivo.
Peguei o
ônibus errado na hora de ir embora, tudo errado.
Eu não desci,
vou pagar pelo meu erro, ninguém mandou ser burro.
Quantas vezes
eu fui forçado a me adaptar? Não me incomodo com as coisas saindo do controle,
me acomodo no banco do ônibus e só observo. Estou de folga, não tem ninguém em
casa me esperando mesmo, de noite faço um miojo pra jantar e como ouvindo raça
negra.
Saudades de
Recife.
Minha mãe ficou
lá com meus 5 irmãos, eu não queria mais aquela vida, queria ver como era em
São Paulo, não me arrependo, não conseguiria mais viver minha antiga vida, mas
alguma coisa ficou pra trás, eu não sinto mais nada, será que eu não tenho mais
sentimentos? Ou será que esse senso de dever, esse senso de continuidade me
impede de sentir?
Eu não tenho
tempo pra ficar deprimido, então deixo esses sentimentos quietos num canto “por
favor não me incomode”, eu preciso trabalhar pra não morrer de fome.
Terminei um
relacionamento recentemente, tudo bem, não tenho tempo pra sofrer por ela, não
tenho ninguém pra me dar apoio, preciso continuar trabalhando pra pagar minha
faculdade, sempre em frente, sempre em frente. Fumo cigarros pra preencher os
vazios, transo com outras, elas estão me usando, eu estou usando elas; ótimo,
sem envolvimento, me satisfaço e sigo em frente, sempre em frente; vazio.
Estou com uma
dor na lombar muito forte, meu serviço é braçal, se eu pagasse um convênio não
conseguiria pagar minha faculdade, tomo um dorflex, dá pra aguentar, não posso
me dar ao luxo de resolver isso agora, não tenho tempo pra dor ou doenças; em
frente, sempre em frente.
O pessoal do
serviço tá fazendo uma vaquinha pra fazer um churrasco e alugar uma quadra, eu
não tenho 50 reais sobrando, provavelmente não irei, meu chefe disse que
pagaria a minha parte, mas eu nem gosto deles tanto assim, eu nem sei jogar
futebol, vou inventar uma desculpa, semana que vem tenho prova e preciso
estudar.
Esses dias passei mal, o médico do SUS disse que era "Síndrome de Burnout", não sou bom em inglês, tomara que isso não me impeça de trabalhar, amanhã faço hora extra.
Minha mãe me
mandou mensagem, digo a ela que estou bem, não posso deixá-la preocupada,
aparências são importantes, se ela souber que eu to passando aperto, vai
adoecer e querer que eu volte, ou pior, vai vir pra cá.
Minha janta
ontem foi um cup noodles e uma paçoca, eu nem tava com fome, mas meu estômago
não parava de roncar, estou muito magro, será que vou ficar anêmico de novo?
Apesar de
tudo, não penso em desistir, na verdade eu até penso, penso em me matar toda
noite, mas eu também nunca fui corajoso, não saberia fazer, nem conseguiria.
Tomo um banho
gelado, a resistência do chuveiro queimou e eu nunca tive tempo de trocar, está
frio e estou com os pelos arrepiados, meu pau sumiu, tomara que eu não fique
resfriado, já levei um atestado esse mês.
Não tem comida
em casa, sem marmita amanhã de novo, vou dormir pra inibir a fome.
Obrigado por
me dar atenção.
Amanhã tem mais.
Em frente, sempre em frente...
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