Luftschloss.
Você tenta me segurar com as duas mãos, eu passo por entre seus dedos, num
intento de um amplexo, seus braços passam direto e você se abraça; como um
gesto de auto piedade. Você percebe o quanto é difícil, o quão solitária é a
minha companhia. Intangível, como fumaça de cigarro.
“A fumaça do cigarro possui uma fase
gasosa e uma particulada. A fase gasosa é composta por monóxido de carbono,
nicotina, amônia, cetonas, formaldeído, acetaldeído e acroleína, entre outras
substâncias. Algumas produzem irritação nos olhos, nariz, garganta e levam à
paralisia dos movimentos dos cílios dos brônquios. A fase particulada contém
nicotina e alcatrão que é um composto de mais de 40 substâncias
comprovadamente cancerígenas, formado a partir da combustão dos derivados do
tabaco. Entre elas, o arsênio, níquel, benzopireno, cádmio, resíduos de
agrotóxicos, substâncias radioativas, como o Polônio 210, acetona, naftalina e
até fósforo P4/P6, substâncias usadas em veneno para matar rato.” – INCA (Instituto
Nacional do Câncer).
Estou sentando numa sala, com uma mesa no centro,
sobre a mesa, há uma única lâmpada, que ilumina a única cadeira presente ali,
como um holofote. Aquele lugar é meu, não há mais ninguém, eu sou o
protagonista desse cômodo, mas por que não consigo me sentar? Se eu sei que
aquele lugar me pertence, por que eu simplesmente não sento?
Atualmente tenho mais perguntas do que respostas.
Quanto mais você se conhece, mais você descobre que
não sabe nada sobre você mesmo. Quando você se compreende, algo em você muda, e
não há como acompanhar a mudança constante, uma vez que ela muda toda vez que
você entende a mudança. Um ciclo tão vicioso quanto acender mais um cigarro.
Autoconhecimento é desnecessariamente desgastante e
inconvenientemente necessário. Nenhum Lebensmüde é suficiente
pra exterminar esse processo hercúleo.
Quando você chegou, você me trouxe uma nova
perspectiva, me tornei parcialmente mais sólido, quase como se você tivesse
acrescentado um pouco de hidrogênio nas minhas partículas, pra que você pudesse
me tocar, eu me tornei uma fumaça parcialmente palpável, como o vapor que
escorre pelas paredes do banheiro depois de tomarmos um banho quente.
Você ainda não podia me pegar no ar, mas eu te
molhava e te aquecia, e você podia me tocar quando me pressionava contra a
parede, mesmo eu sempre conseguindo escorrer.
Não houve hidrogênio o suficiente.
Eu voltei ao estado gasoso; CO² puro. Você era uma
química frustrada e eu era um elemento químico descartável, não valia a pena
fazer experimentos comigo, isso consumiria muito do seu tempo; pra nada.
A fumaça é irracional, não é um ser vivo, não
possui capacidades cognitivas, polegares opositores, habilidades de dedução
lógica, sentimentos, ela é uma transeunte em um cômodo que preenche por
completo e depois se dissipa; deixando o cômodo vazio.
Você acha que eu gosto disso? Dessa existência
finita e limitada?
Eu sei que é difícil esquecer a experiência do
preenchimento, se fosse fácil não haveriam tantos fumantes.
Mas vamos falar de outra fumaça, uma fumaça que já
foi gelo, que já foi água, que já foi nuvem, que já foi rio, oceano... Será que
eu já fui sólido um dia? Será que poderei voltar a ser (se é que fui)?
Eu tenho medo, porque agora que eu dissipei, você
teve contato com outros elementos, eles viabilizam e facilitam seus
experimentos, não queria que a química desistisse de mim, mas eu não posso
alterar minhas propriedades e o meu valor, pelo menos não agora.
Por hora, me exponho as intempéries e deixo que
hajam sobre mim, tenho contato com outros elementos, acho que essa é a única
forma de conseguir alterar minhas propriedades e me tornar viável de novo.
Sou consumido por Fernweh, e você em equilíbrio consumida por Heimweh.
Não
precisa dizer, eu sei. Eu também.

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