Arthur.

O final de semana:

A julgar pela posição da lua, acredito que sejam 22:00, algum horário próximo disso, aprendi a ver as horas pela posição do sol e da lua em um livro que peguei na biblioteca da escola, eu não tinha celular então tive que aprender a me virar de outras formas.

Essa noite não houve jantar de novo, minha barriga estava roncando mas eu já estava acostumado, estava sempre com fome, por sorte ainda tinha um pacote de macarrão instantâneo que eu consegui comprar com um dinheiro que ganhei fazendo entregas pro supermercado depois da aula.

Depois de ficar tanto tempo sem comer, tive que aprender a me virar, eu tinha 14 anos e já trabalhava pra me sustentar. Em partes, acho que o dono da mercearia me ajudava porque sentia pena, ele sempre me dava almoço e eventualmente me dava roupas e tênis que não serviam mais em seus filhos, além disso, todo dia ele me pagava 30 pratas e deixava eu pegar alguma coisa do mercado no final do expediente; eu gostava muito dele, foi o mais próximo de um pai que eu não tive a vida toda.

Hoje é sábado, e aos finais de semana eu não trabalho, por isso, toda sexta feira eu compro alguns pacotes de biscoito e macarrão instantâneo pra conseguir sobreviver ao final de semana. Eu costumava passar os finais de semana na casa de amigos, mas depois que a mãe do meu amigo Bryan ligou para o conselho tutelar, umas pessoas vieram em casa e minha mãe passou a me deixar trancado no quarto.

Aos finais de semana ela trazia vários homens diferentes pra dentro de casa, e durante a noite, o barulho era insuportável, já vieram até policiais por conta de reclamações de barulho na vizinhança. Uma vez eu perguntei pra ela o porquê de ela fazer isso, e ela apenas dizia “estou pagando por esse teto que você dorme, não se intrometa lixo”, ela me chamava assim, e eu já estava acostumado, não me importava mais.

Já fazem 3 dias que eu não tomo banho, minha mãe desliga a energia e só liga quando ela vai tomar banho, está frio demais para tomar banho gelado, estou com uma coceira no braço e está começando a ficar ferido, acho que preciso enfrentar a água fria amanhã.

Como meu macarrão instantâneo cru com tempero, meu sabor favorito era de caldo de galinha, eu havia experimentado todos da prateleira do mercado, mas nenhum superava aquele, era o meu favorito.

Todas as noites, antes de dormir eu abria a cortina, e ela estava lá, Margareth, minha melhor amiga, eu piscava meu abajur em ritmos intermitentes, era código morse, e ela piscava a lanterna do celular, nos desejávamos “Boa noite”.  Eu havia aprendido código morse com o zelador da escola, e ensinei para Margareth.

Por falar no zelador, ele era um cara muito legal, sempre vestia camisetas de banda de rock, me deixava ficar com o seu diskman no recreio, todos os meses ele me apresentava umas 3 bandas e dizia “Isso sim é que é música Arthur!”, além disso, ele me dava várias revistas em quadrinhos de super heróis, meu favorito era o homem aranha, ele cresceu sem os pais e nunca matava seus inimigos, sempre seguia em frente, independente da adversidade, Peter Parker era meu herói, um dia eu quero ser igual ele!

Os lençóis sobre os quais eu dormia no chão estavam cobertos de farelo de miojo, precisava me livrar dessa sujeira ou levaria uma boa surra, minha mãe sempre dizia “se não for ajudar, procura não atrapalhar, desde que nasceu só me deu despesas, zelar pelo que eu conquistei é o mínimo que me deve”, ela tinha razão, ajudar a manter tudo organizado era o mínimo que eu podia fazer.

Sacudi meu lençóis na janela e arrumei tudo para me deitar, mais um dia havia sido concluído, eu me deitei e me encolhi, aquela noite seria fria, aprendi a me manter encolhido e aquecido.

A semana:

Durante a semana eu ia pra escola e trabalhava, não haviam muitas variações, isso porque era uma cidade pequena, nunca tinha nada de novo, ninguém novo ou grandes emoções, uma simples queda de energia era pauta das idosas nas filas do supermercado por 1 mês inteiro.

O ponto alto da minha semana era a saída da escola, eu encontrava a Margareth no pátio, e íamos andando até as nossas casas, eram cerca de 20 minutos, e era a melhor parte do meu dia (talvez da minha vida).

Conversávamos sobre a lição, fofocávamos sobre os colegas da escola, ela me contava sobre coisas que aconteciam no mundo, eu não tinha celular e a única TV da casa ficava no quarto da minha mãe, às vezes quando ela saía eu gostava de assistir o canal de clipes e assistia alguns desenhos, mas era sempre muito rápido.

Eu amava a Margareth, ela era a única que me entendia e que parecia não sentir pena de mim, ela realmente gostava de mim por quem eu era, e sempre me procurava quando queria conversar ou precisava de algum conselho, eu nunca sabia o que dizer, mas amava ouvir a doce voz dela e abraçá-la no final, num gesto de compreensão e de esperança, um abraço que indicava que tudo ficaria bem; nisso eu era bom.

Ela gostava de discutir sobre política e sempre discordava do pai dela que era conservador, ele falava de intervenção militar e tortura e ela sempre discutia com ele, às vezes dava pra ouvir os gritos da minha casa no outro lado da rua.

Ela sabia tocar violão, gostava de comida mexicana, sua banda favorita era Letters to Cleo e consequentemente seu filme favorito era “10 things i hate about you”, eu adorava aquele filme, já tinha assistido milhares de vezes com ela. Ela também tinha me apresentado vários outros filmes, ela baixava da internet e toda terça feira assistíamos pelo menos uns 2 filmes.

Ela tinha me apresentado “The breakfast club”, “The dreamers”, “The perks of being a wallflower”, “Fight Club”, “Eternal Sunshine of the Spotless Mind” e muitos outros filmes excelentes! Mas definitivamente, o meu favorito era “Bridge to Terabithia”, era o nosso campeão de bilheteria, eu chorava todas as vezes, e ela sempre secava minhas lágrimas se segurando para não chorar, às vezes ela não resistia (principalmente quando estava de TPM) e aí, chorávamos juntos como duas crianças.

Nós havíamos fundado o “Clube dos fracassados”, tínhamos feito uma placa com uma madeira de guarda roupa que achamos no lixo, escrevemos nela com um marcador permanente da Margareth. Havíamos decidido que o clube dos fracassados aconteceria todas as terças-feiras, porque todo mundo odiava as segundas-feiras, e amava as sextas-feiras por ser próximo aos finais de semana, portanto, haviam sobrado terças-feiras, quartas-feiras e quintas-feiras.

Depois de uma discussão longa, decidimos que ninguém liga para terça-feira, vem depois da segunda, quando os ânimos se acalmam, tudo fluindo com uma normalidade amena e entediante, a cara do fracasso, a nossa cara, os primeiros entre os perdedores.

Às terças, enquanto a Margareth fazia a sua famosa “pipoca de cinema especial”, eu amarrava cordas de varal nas colunas da casa e usávamos edredons para montar espécies de barracas, eu colocava uns travesseiros no chão e nos deitávamos.

Acho que o motivo de eu gostar tanto desse filme era também porque uma vez, eu e a Margareth não estávamos assistindo ele, ficamos nos olhando por um longo tempo, pelo menos uns 15 minutos, sem dizer uma palavra, as bochechas dela estavam rosadas e ela estava quente, e eu estava com o coração acelerado e as mãos geladas. Foi então que ela veio na minha direção e me deu um beijo, eu senti que iria explodir, mas não foi o caso, eu só saí correndo e fiquei trancado no quarto sem entender o que eu estava sentindo, eu sequer ajudei ela a arrumar a cabaninha.

Desde aquele dia, isso nunca mais aconteceu, mais ainda nos deitávamos com as pernas entrelaçadas e de mãos dadas, às vezes nossas respirações aceleravam, mas havia um acordo não verbal implícito que pairava no ar, de que aquilo não devia acontecer.

Hoje era dia do Clube dos Fracassados, e os pais dela não estariam em casa, havíamos marcado de matar aula e maratonar todos os filmes do Batman com o Christian Bale, o tempo era curto e precisávamos correr para conseguir assistir tudo.

Pedi folga no mercado e estava levando um refrigerante e chocolates pra gente, quando Margareth abriu a porta, muita coisa aconteceu, ela estava linda com um vestido rosa e um fita que prendia seu cabelo, ela tinha cheiro do perfume que a mãe dela usava quando ia para eventos importantes de família, mas por que ela estava tão arrumada e cheirosa? Ela sempre me recebia vestindo pijamas, moletons e pantufas.

Foi quando olhei para a sala e ele estava lá, Erick, o cara que fazia bullying comigo diariamente, é claro que a Margareth não sabia, ela era popular na escola, tinha boas notas e durante o dia mal olhava pra mim, ficava com suas  amigas, e eu nunca contaria pra ela que ele fazia bullying comigo, eu não queria parecer mais fracassado ainda.

Ele estava montando a cabaninha errado.

Tinha colocado o varal entre o sofá e a parede, bem o tipinho dele, bonito e burro. Era uma questão de tempo até que o varal fosse escorregando por não estar preso bem o suficiente para suportar o peso dos edredons. Eu estava torcendo por isso, e decidi não falar nada sobre esse risco, me senti mal por desejar mal a eles (a ela especialmente), mas não tinha culpa por eles serem inimigos do básico.

- Por que você chamou ele aqui?

- Ah, eu comentei que iríamos assistir os filmes do Batman, ele disse que adorava e sabia quase todas as falas, achei que seria legal se ele viesse...

- Claro, ele tem tudo haver com o Clube dos Fracassados...

- Por que está dizendo isso? Ele é um cara legal!

Eu levantei meu tom de voz, o que fez com que Erick olhasse para a porta e percebesse que eu estava ali.

- Você está defendendo na minha frente o cara que me ofende todos os dias, que me pune por eu não ter pais, por eu feder e não ter roupas novas ou de marca, o cara que me bate praticamente todas as vezes que eu cruzo o caminho. Sinceramente Margareth, eu esperava mais de você...

- O que você está dizendo? Ele não é assim, nunca faria uma coisa dessas!

Erick apareceu na porta abraçando ela por trás, passando a mão em volta da cintura dela.

- Algum problema por aqui?

Começo a tossir, e sangue escorre pelo meu nariz, Margareth tenta colocar a mão em mim mas eu empurro ela com força, ela cai e me olha confusa, o Erick vem pra cima de mim e eu dou um soco no nariz dele que também começa a sangrar. O que era aquilo? Eu nunca havia feito aquilo antes; estava me sentindo péssimo.

 

Sexta feira:

 

Essa sexta feira não estava animada na nossa cidade, duas senhoras estavam paradas confusas na frente do supermercado, que estava fechado, na frente do supermercado havia uma placa “Estamos de luto, fechado temporariamente. Obrigado pela compreensão.”.

Uma das senhoras comenta com a outra:

- Ficou sabendo da mulher que foi presa essa semana?

- Fiquei! Parece que o conselho tutelar a levou sob inúmeras denúncias de negligência com o filho.

- Como pode existir gente assim no mundo não é mesmo?

- Realmente, é revoltante, se eu fosse o garoto teria fugido faz tempo.

- Pois é, será que o mercado vai estar aberto amanhã?

- Não sei, precisava fazer uma sopa pra servir no bingo amanhã, se não abrir vou ter que ir até o mercado da cidade vizinha.

- Vamos esperar né... Até mais comadre.

As idosas se despedem sorrindo e acenando.

 

O fim do Clube dos Fracassados:

 

Em volta do caixão estavam Margareth, o dono da mercearia e sua esposa, o zelador do colégio, o padre e o coveiro. O zelador acende o quarto cigarro na sequência:

- Hoje é o dia mais melancólico da minha vida.

Margareth tira um papel do bolso e começa a ler o que parecia ser uma espécie de carta:


Eu nunca vi alguém com tanta vida como você.

O fundador do Clube dos Fracassados, meu melhor amigo.

Eu nunca te entendi por completo, por mais que me esforçasse.

Nunca me senti perto o suficiente, por mais que eu tentasse.

Você sempre estava muito triste, sempre sofrendo, mas nunca te ouvi reclamar, nunca te vi sem sorrir, mesmo quando sua barriga roncava ou quando você aparecia ensanguentado e cheio de hematomas.

Eu nunca te ouvi reclamar da sua mãe apesar de eu desejar do fundo do meu coração que ela morra lentamente.

Você tinha tanta vida, tanto amor, que eu nunca me senti digna do privilégio de te ter ao meu lado.

Eu te amava Arthur, apesar de não entender esse sentimento direito, e de ter percebido tarde demais que talvez faria toda a diferença ter te dito isso, eu te amava, me perdoa.

Eu nunca me esforcei pra te enturmar na escola, sempre ficava com aquelas garotas fúteis em busca de uma migalha de aprovação social, eu poderia ter sido melhor pra você.

Eu queria poder morrer junto com você.

Não tenho vocabulário suficiente pra te agradecer por tudo que me ensinou sobre a vida, e sobre bondade, sobre como montar uma boa cabaninha, e sobre como era muito mais gostoso separar o recheio do biscoito e fazer uma bolinha pra comer todos os recheios no final.

Obrigado Arthur.

Do outro bolso ela tira um papel, um papel amassado, o papel que foi encontrado no bolso da jaqueta, o último pensamento de um fracassado. Em voz alta, Margareth leva 5 minutos pra ler aos prantos e soluços.

Ponte para terabítia era uma mentira, ghost do outro lado da vida talvez seja verdade, mas não pra mim, não pude viver uma história de amor e nem ter a melhor vida de todas, mas eu fui feliz, fui verdadeiro e sempre busquei inspirar as pessoas a serem melhores da forma que eu pude, me sinto uma alma velha, apesar de ser tão jovem, e esse é o fim da linha pra mim. Obrigado a todos, por tudo, eu amo vocês.




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