1…2…1…2…1…2...1...2...1...2...1...2...1...2...1...2...1...2

Eu não suporto mais minha própria presença.

Quando me vejo só por 5 minutos começo a entrar em colapso.

Isso nem sempre foi assim, eu sempre me senti muito bem sozinho, mas de uns tempos pra cá tem sido insuportável.

Acho que isso é a resultante de toda a sujeira que varri pra baixo do tapete por tanto tempo, e agora essa montanha é visível debaixo dessa estampa horrível; e alguém vai ter que limpar.

Simplesmente saio sem destino, perdido e com raiva, doente da cabeça; até quando vai ser assim? Quanto será que eu consigo suportar esses problemas sem solução me suprimindo?

Preferia não ter sido alfabetizado.

Não fossem as músicas, preferia também ser surdo.

Agradeço a quem inventou os fones de ouvido, te pagaria um hot dog em agradecimento se eu pudesse.

Quanto mais eu reflito e compreendo a natureza humana, menos ela me interessa, não aguento mais esse mecanismo sexual e essa esperança, uma fé num Deus morto que cospe positividade em frases genéricas no meu trajeto pro inferno literário.


1…2…1…2…1…2

 

Continuidade frenética e doentia, não consigo romper o ciclo da minha limitação humana, não consigo ir além das minhas fraquezas e falhas.

Busco ar respirando fundo, mas eu nem sei se esse ar é de verdade, e tampouco se é capaz de me preencher, mesmo que por uma fração de segundo.

Tudo parece sucumbir, nenhuma das relações tem êxito, aonde eu estou errando?

Andar de ônibus e metrô me alivia, tem um condutor no controle e eu sou só o expectador, tem semáforos e paradas, as regras, uso obrigatório de máscara, tem outras pessoas que eu não conheço, “gente do mal e do bem”, uma zona neutra, de interação real, ninguém está atrás da tela do celular, o máximo de julgamento está dentro dos olhares, opiniões não são verbalizadas a esmo porque as pessoas não estão protegidas pelo anonimato, a confidencialidade dos 0’s e 1’s.

A música está alta no fone, ficar surdo já é um futuro próximo, acho que não terei problemas com isso, quanto mais o tempo passa, menos eu quero ouvir o que tem a dizer.

Ando de skate como um louco...

Porra...

Muito bom andar de skate.

Poucas são as sensações que se comparam com o pé em contato com o asfalto, com a lixa, a trepidação do atrito das rodinhas com a irregularidade do chão, reverberando nos meus joelhos, pulsando adrenalina, meu sangue fervendo, meus cinco sentidos aguçados para evitar os carros e as bicicletas que coabitam aquele espaço no qual eu fico por 1 segundo.

Cada estímulo conta, sou rápido e infinito, nada me para.

Me sinto jovem e quero mais daquilo.

Quando sinto a jovialidade eu me lembro que de fato sou jovem e que apesar da minha saturação, ainda existe vida; ainda há muito pra mim.

Falo do que é bom mas também falo do monte de lixo que vai me gerar acúmulo e repertório... Ossos do ofício. 

Sempre haverá álcool e cigarro para quando o fardo se tornar pesado demais; potencializadores do ódio e inibidores da dor.

 

Talvez seja hora de parar para calibrar os sensores e alinhar os eixos, fazer uma revisão geral, sempre há espaço para mudança; sempre há espaço para potencial de ação.




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