Dissociação.

As coisas não são tão engraçadas assim, repassando algumas vezes tudo perde a graça, pois essencialmente, a risada é o refúgio da alma desesperada, encaixada numa jaula de carne, que se mata e se degrada diariamente, no fim das contas, rir é realmente desespero, e não tem graça.

Sabe quando você tropeça na rua? Quando bate a cabeça em alguma coisa e todo mundo te olha, quando você está com diarréia e parece que seu mundo está do avesso, quando você é criança e fez xixi ou cocô na calça? Eu me sinto assim integralmente.

Quando saio na rua, não há nada demais comigo, mas na minha cabeça tem uma peça desencaixada, como se todo mundo me evitasse ou me odiasse, e os que não fazem isso são os que farão chacota de mim; se eu não for agressivo o suficiente.

Pessoas andam com suas cabeças erguidas e seus orgulhos idiotas, com suas vidas públicas perfeitas, cantores do coral da igreja, recepcionistas de hotel cinco estrelas no centro, o cara que trabalha vendendo relógio roubado no centro da cidade e se veste como algum funkeiro famoso, achando que está fazendo progresso e que venceu na vida.

Todos idiotas, frágeis, seres humanos, com sangue correndo nas veias, com necessidades fisiológicas, fome, frio, sede, doenças, as mesmas condições para todos.

 

Imagem mental: O meio fio invisível sob o qual caminhamos, sob o ritmo frenético de motores ao fundo, o ar repleto de fumaça, carros passando a 90km/h buzinando, ruído ensurdecedor de britadeira, alvoroço, bala perdida, uma criança chorando procurando por sua mãe, um pedinte calçando apenas um sapato está jogado na calçada, ele come comida do chão junto com um pombo, acima dele dois urubus esperam pacientemente.

Caos.

 

Não entendo o sentimento de orgulho, não entendo o senso de superioridade e a soberba, nunca entenderei, porque na minha cabeça, tudo isso cai por terra quando você coloca em cheque o quão frágil você é, tão frágil quanto o que quer que seja que sustente sua cabeça erguida.

Basta um escorregão em público para deixar o maior milionário bem sucedido do mundo desconcertado, motivo de riso e de chacota em alguma revista de fofoca redigida por uma gorda com astigmatismo e escoliose.

Desprezível natureza humana.

Tomados por ambições intangíveis, trilhamos nossos caminhos, sabendo de nada e acreditando saber tudo, flutuando no caos e acreditando estar no controle.

Isso não deixa de ser uma guerra, a luta contra a extinção, a luta contra nossa fragilidade inata, a luta pelo controle.

Me sinto como parte do caos, meio vivo e meio morto, e a parte de mim que está viva flutua como parte constituinte do caos, cada molécula flutua a esmo, sou uma fumaça um pouco mais sólida, e nada disso faz sentido pra mim.

Será que tem algo errado comigo? Por que eu não tenho respostas? Por que tantas perguntas?


Olho para o chão lá em baixo, pelo menos uma vez por semana me imagino ali estatelado, sirenes, minha mãe aos prantos, a vizinhança curiosa, sangue por todo lado, meu computador ligado baixando algum filme francês de péssima qualidade e semeando torrents de todos os filmes que eu já assisti pelo menos 10 vezes.

Me imagino sendo envolvido pelo ar, ele sabe qu’eu não sou má pessoa, tenta apresentar resistência, me segurar, mas a gravidade sempre foi mais forte, a valentona no recreio da terra, nada dentro desse eixo pode vencê-la, exceto talvez o tempo.

Vendo que não consegue, o ar me acolhe, me abraça e se junta a mim na queda, toca minha pele suavemente, e por alguns segundos parece que estou voando, mas de olhos fechados não dá pra ver nada, não terei uma segunda chance de apreciar a vista desse ângulo, não seria meu primeiro erro; talvez fosse o último.

Depois do baque não há nada, deixo de existir, sentimento de nada; perturbador.

 

Isso me traz para o centro, como a gravidade que me puxa para o eixo, o centro da terra, quente e bonito, porém perigoso, reconheço minha fragilidade, termino meu cigarro e sigo vivendo, aquela ideia me é repugnante apesar de ser romanticamente atraente; é inviável.

Faço questão de me lembrar todas as vezes que eu não conseguiria, e que não é isso que eu realmente quero.

Sigo também (assim como você), pelo princípio do prazer.

Um dia de cada vez.

Propósito nenhum.

Entendimento, bem pouco.

Um senso perturbador de continuidade, quase que como esperança, mas em quê? Esperança em ter esperança, acho que isso sim poderia ser engraçado, se não fosse trágico.

A propósito, que vontade de chorar.

Sigo também, sem saber como terminar um texto.




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