Simplesmente Reclamações.
Eu imagino um deserto, com inúmeras pessoas e
infinitas possibilidades, todo mundo doente e com sede, a palavra da vez é
seca. Secos tem sido meus sentimentos, seco eu tenho sido, secas são as minhas
tosses (eventualmente com sangue), seca a vida tem me retribuído, nem uma gota
d'água, sem alegria, sem esperança.
Passei uma semana inteira sem sorrir sequer uma vez
verdadeiramente, vi em um filme que quando isso acontece a sua vida perde o
sentido; acho que perdeu mesmo.
Olho para o celular e não tem nenhuma notificação,
ninguém mandou mensagem, ninguém lembrou da minha existência ou achou que eu
merecia, embora não devesse, eu acredito que vão lembrar de mim, ainda me resta
o mínimo de auto estima para tal – o desejo de ser lembrado fora da conotação
sexual.
Todo mundo ta doente, todo mundo tá cansado, a
esperança de final de ano me mata mais do que os cigarros que eu fumo,
acreditar que a meia noite de um dia massivamente normal uma chave vai girar e
as energias cósmicas vão trabalhar em meu favor me dá gastura.
Ninguém
tá feliz.
O sentimento é de frenesi, estamos continuando
porque precisamos, e porque não temos opção, trabalhamos porque precisamos nos
alimentar, porque precisamos ter o mínimo saneamento básico e qualidade de
vida, bebemos pra suportar o cansaço físico e mental que o trabalho nos impõe,
temos problemas de saúde porque trabalhamos e bebemos demais, e não há
organismo que aguente a rotina de pobre, pegamos um atestado e perdemos o
emprego porque o capitalismo poda não só as árvores podres, mas também as que
não dão frutos (mesmo que temporariamente).
Ninguém
é amigo de ninguém.
Depois de uma jornada de 12 horas de trabalho
qualquer estímulo é agressivo e qualquer música é irritante, qualquer presença
é inconveniente e incomoda muito.
Depois de ter o seu espaço invadido por todo tipo
de gente você paga seus centavos contados por um pouco de paz, num assento
próximo a janela com vista para a metrópole poluída, sob a perspectiva de um
vidro molhado pela chuva que enxarcou seus tênis e cozinhou seus pés o dia
todo.
Uma pessoa infeliz, provavelmente frustrada e mal
amada consegue sustentar no celular uma conversa de mais de uma hora sobre um
bilhão de futilidades que não interessam a ninguém, nem a ela mesma, mas ela
mesmo assim faz isso, primeiro porque é uma grande filha da puta, e segundo
porque ela está perdida, e não consegue lidar com a sua própria e esmagadora
presença insuportável.
Observo um cego andando na chuva com sua bengala, a
vida não está tão ruim pra mim, eu não gosto de me apoiar no sofrimento dos
outros para me sentir melhor, mas eu fico pensando que poderia realmente ser
pior, e decido que enquanto eu tiver integridade física, eu vou seguir também,
como a multidão, perdidos e sem rumo; mas seguindo.
Sem
ódio eu não sou ninguém, e sem ele não teria chegado aonde cheguei, por tê-lo,
sou grato.
Depois de uma semana exaustiva, um mês exaustivo,
um ano exaustivo, pouco me resta, junto uma bagagem que não me impeça de andar
e sigo rumo ao infinito, tomara que nesse ano eu morra, mas se não for o caso,
tomara que eu aprenda uma coisa ou outra e tenha bons momentos com Debora, Gu e
quem mais vier.
Cansado,
deprimido e ridicularizado.
Sam.
Comentários
Postar um comentário