Dissociação - Uma noite no centro do Caos.
TEXTO ESCRITO EM MAIS UMA NOITE NA QUAL NÃO PUDE ME CONFRONTAR E SAÍ
SOZINHO POR AÍ. – ANOTAÇÕES FEITAS DURANTE TODA A NOITE (SEGUEM UMA ORDEM
CRONOLÓGICA).
Por que tanto álcool? Por que tanta droga? O que essas pessoas tanto
temem? O que tanto evitam encarar?
A cada trago minha ansiedade diminui.
Eu tremo em busca de mais um gole.
Meu corpo e minha mente estão debilitados e precisam disso.
Minhas costas doem.
O mal me circunda mas não pode me tocar, sou inalcançável do alto da
minha ignorância.
Estou cercado de desconhecidos e isso me conforta, o fato de saber que
nenhuma dessas pessoas me conhece, a possibilidade de incontáveis recomeços sem
finais felizes.
Minha cabeça está quebrada e não sei mais o que fazer.
Se Deus existe ele
está envergonhado, meus pais estão, não foi isso que planejaram pra mim, em
algum momento eu também cheguei a planejar algo, e definitivamente não era isso.
Em algum momento eu mudei a rota e me tornei essa coisa ridícula e digna de
desprezo.
Depois de morrer
internamente nada mais me abala, acho que é exatamente o problema, com a morte
interna também morrem meus sonhos e perspectivas, morre a criança que vivia em
mim, e eu sei que as coisas que eu perdi nunca voltam.
Não vejo verdade em
nada e nem em ninguém (exceto nos animais), e geralmente por trás de boa parte
das interações existe um interesse sexual, ávidos por expandirem suas coleções
de figurinhas vazias e intocadas, nesse contexto, não passo de uma carta fora
do baralho.
Sou imortal enquanto houver música e minha bateria durar.
Me abasteço de bebida barata, é a parcela que me cabe.
Um cara que está
coletando latinhas me aborda, lhe ofereço um cigarro e acendo pra ele, “que
merda de mundo” ele pragueja, eu concordo, ele diz que trabalhou a noite toda e
até o momento só fez R$1,50; realmente, que merda.
Observo um grupo de
jovens que está jogando vôlei, desconsiderando a falta de habilidade e a bola
murcha, eles estão se saindo bem, mas o seu maior adversário? A gravidade, e é
impossível vencê-la nesse jogo. Nem sempre a vida nos dá os melhores recursos
para os piores contextos, quase sempre fazemos o que dá com o que temos.
Um cara se aproxima
de mim, Rafael, ele carrega um copo descartável com um vinho barato dentro; me
pede um cigarro. Eu estava sentado em um muro alto (gosto de ter uma visão
panorâmica, então sempre subo em lugares altos), então desço pra falar com ele
e lhe dar o cigarro.
Existem pessoas boas
no mundo, aliás, ninguém é integralmente bom, mas existem pessoas bem
intencionadas no mundo, com um bom coração, mas eventualmente perderam tudo ou
simplesmente algo significativo e sucumbiram ao limbo.
Rafael perdeu o pai,
faziam dois dias, disse que era o seu melhor amigo e que nem fez questão de ir
ao enterro pois não queria encarar o corpo inerte. Disse que suas irmãs
estavam disputando a herança e que ele nem fazia questão, porque estava
muito triste, disse também que estava sem dormir há 3 dias, que já tinha bebido,
fumado e cheirado tudo que podia.
Dei a ele meus
ouvidos e minhas melhores palavras, sei que nesses contextos a gente não quer
ouvir ninguém, e que são poucas as palavras que nos confortam; eu sei muito
bem... Mas espero ter ajudado de alguma forma, que pelo menos uma semente tenha
sido plantada.
Ao final da conversa
dei um abraço nele e o assisti andar a passos curtos e tristes, te desejo o
melhor Rafael, te cuida.
A noite discorre,
fresca e arejada, linda, quase como se tudo estivesse bem; sabemos que não.
Meu coração dói ao
imaginar que tem tanta dor por aí, e dói ainda mais saber que não posso fazer
nada.
Eu tenho um problema
de interpretação, de achar que tudo tem uma mensagem por trás, algo implícito
nas atitudes das pessoas, esperando para ser desmembrado e analisado. Às vezes
interpreto até o que não devo, até o que não é passível a interpretação, e por
causa dessa característica minha eu sofro; porque eu sinto que no fim das
contas, tudo não passa de um pedido de socorro.
Retiro o que eu disse, enquanto houver cigarro eu sou imortal, minhas
exigências começam a diminuir.
Novamente realço como
os vícios estão presentes neste lugar, e quanto mais a noite discorre, mais
isso é visível, afinal a multidão se dispersa, começam a ir embora em uma
ordem, dos “menos piores” – piores. Todo mundo sabe a hora de voltar para o
lar, pelo menos quando se tem um...
Já vi casas que não
são lares, você já viu também?
Pra encerrar a noite, conheço o Bruno, ele estava me observando fazia um tempo e eu tinha percebido,
mas deixei as coisas fluírem. Ele veio até mim, se apresentou espelhamos nossas
realidades e nos demos bem instantaneamente.
Conversamos sobre
Deus, família, relacionamentos, perspectivas e sobre como nos sentimos com
relação ao mundo, foi enriquecedor e adorei tê-lo conhecido.
Volto pra casa e durmo no caminho, estou bêbado e em paz, mais uma noite em que não precisei me encarar, quero ver até quando consigo empurrar isso com a barriga.
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