Lapso.

Respiro fundo, mais fundo do que o normal, até mais do que deveria. Respiro fundo de novo, e de novo, e de novo, quantos fôlegos serão necessários pra que eu consiga respirar? Para que eu me preencha?

Acendo um cigarro; assim é melhor, o ar mais denso me preenche, acompanhado do olhar da morte que espreita e me sonda, eu aceno mas ela não se aproxima; ainda.

Já se sentiu no vácuo?

3 minutos se passaram mas você envelheceu 50 anos, viu coisas que não gostaria, ficou cansado só de respirar, cada perna pesando 80kg.

Foi um dia cheio, me sinto exausto e busco encontrar repouso e alento nos meus vícios e no colo daquela que juro amar.

Meus olhos doem e me repudio por cada consequência não sofrida das escolhas que não fiz.

Queria tomar um banho de chuva, sentir o frio afligir minha pele para que pudesse comprovar que ainda estou vivo e que há calor sob ela.

Cada passo é arrastado, cada dia mais sofrido, cada devaneio mais longo, eu não dou 5 anos pra que eu enlouqueça completamente, e muito menos tempo para os meus pulmões se degradarem por completo.

Não há espaço para ressignificações ou confabulação arquetípica, tudo não passa de realidade sólida e corrosiva, nada além do que é; uma merda.

Estou num pântano lamacento chafurdado até o último fio de cabelo, e a cada vez que emerjo com um sorriso amarelo, sou puxado pelo tornozelo e jogado com força contra as algas da superfície, que rasgam minha pele.

Impossibilitado de ser feliz.

Falta pouco para o fim, e a cada dia que passa eu valido isso, nos minutos e nos segundos, enlouquecedor o ruído abafado do ponteiro na minha cabeça - tic, tac, tic, tac...

Sou constantemente lembrado por pessoas que se sentem próximas o suficiente e que acreditam saber de algo, de que a vida vale a pena e que há beleza nas coisas e nas pessoas; há?

Incapacitado de acreditar e compelido a não confiar, sigo em frenesi, esperando por algo surreal que me aqueça e que traga cinco minutos de paz pra minha cabeça doente.

Me escorre o tempo como uma ampulheta, com a base quebrada, minha areia é despejada como a de um caminhão em uma construção de um prédio sem janelas, que implicitamente deixa claro que não tem acesso a luz do sol.

Há apenas uma lâmpada fraca no centro, iluminando meu corpo jogado no chão e uma nota deixada, escrita a mãos trêmulas e bêbadas; “fui tarde”.




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