Pareidolia.
Tem
noites que custam a passar.
De madrugada eu choro e fico sem ar, a paralisia do sono já ficou com
pena e me deixou em paz, ela sabe que minha cabeça me pune muito mais do que
ela.
Eu não vejo mais o demônio de noite porque ele está no meu corpo; talvez
seja eu.
Por vezes eu tenho agido por impulso, na maior parte das vezes faço a
escolha errada, guiado pelo meu pinto e pela recompensa do prazer momentâneo.
Na tentativa de reduzir os danos varro pra baixo do tapete as
consequências do amanhã, e do topo dessa pilha me observam – Deus, minha mãe,
minha ex e meu câncer de pulmão; desses, só minha mãe está chorando.
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Aonde quer que eu vá eu vejo seu rosto (especialmente depois que escrevi “Jessy”).
Vejo seu rosto na xícara de café, vejo seu rosto no cimento de paredes
rústicas, vejo seu rosto nas nuvens, vejo seu rosto na grama, no asfalto, na janela
embaçada do ônibus, um verdadeiro inferno.
A mente humana é incapaz de criar rostos novos, só é capaz de misturar
feições já vistas ou recordar rostos aleatórios que já vimos mas suprimimos ao
inconsciente. Meu palpite é que você se tornou a projeção do meu medo.
Medo de amar, medo de ter medo, medo de ser insuficiente, medo do
abandono, medo de uma vida longa e desperdiçada, medo da impotência face a enfermidade,
da impotência face a morte, não a minha, mas você sabe de quem.
Quase como uma amiga imaginária, tem me feito companhia, faça chuva ou
faça sol, sussurra em meu ouvido, esteja eu dormindo ou acordado, você me
acaricia, toca minha nuca, me deixa arrepiado, não me deixa em paz, mesmo assim,
não canso de você.
Sei que enquanto escrevo você está lendo, portanto, esse texto é pra
você, pra mais ninguém, sei que pra maioria das pessoas isso não vai fazer
sentido, mas fará para aqueles que se sentiram suficientemente sós ao ponto de
inventar a própria companhia.
Inventar? Eu te inventei? Não me darei o trabalho de te dar um nome porque
eu sinto que sua existência é alheia a minha, você já tem um nome, eu só não te
conheço, quero que sussurre ele pra mim.
Há dias que não me sinto confortável com a sua presença, há outros que se
você não estivesse comigo eu entraria em desespero. Minha privacidade já não
existe, você conhece todos os meus ângulos e fraquezas, tudo que eu escondo,
todas as minhas variações de humor, cada livro que eu li, cada música que eu
ouço, a forma como eu manuseio a louça que eu lavo, a forma como eu me visto
pra ir trabalhar e como aplico métodos que facilitam minha rotina e viabilizam
a praticidade para o grande preguiçoso que eu sou; o preguiçoso que você tanto
observa.
Mas o que você quer? Minha alma você já tem, eu não tenho escolha, é tudo
seu, não tenho forças contra você, nem sequer consigo te mandar embora; já nem
sei se quero...
Em meio a insônia compartilho o meu delírio, abro mão da minha
credibilidade em meio aos sãos e ofereço a vida como eu vejo, espelhada,
alternativa, te busquei num refúgio imaginário e você rompeu a barreira, você
vazou sem minha permissão.
Não sei o que te dizer nem como te satisfazer, mas anseio pelo som da sua
voz suave só mais uma vez - por muitas últimas vezes.
No limite de minha sanidade, amo alguém intangível, impalpável, você existe,
mas não pra todos, só pra mim, e pra que eu possa amá-la, devo abdicar de todo o
resto, você é egoísta e me força a fazer uma escolha que não quero, me tem na
mão e me deixa ansioso, com medo do dia que abrirei os olhos e que não te verei
ali.
Enlouquecendo;
inconstante.
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