Cinzeiro a céu abrido.
O
que eu tanto tenho olhado?
O
que meus olhos tanto buscam quando trago meu cigarro?
Tantas pessoas,
tantos rostos, os mesmos com os quais eu sonho toda noite, faces indistintas se
misturam e formam criaturas desfiguradas com repertórios infindáveis que são os
protagonistas dos meus pesadelos.
Ao meu lado, meus
companheiros leais, o lixo e o cinzeiro a céu aberto; como sempre, acolhem meus
silêncios e confortam minhas reclamações não verbais, num senso de compreensão
que com certeza é maior do que os 100 litros desse saco de lixo.
Das bitucas que vejo,
imagino quantas bocas tem aqui, e quantas bocas beijaram as bocas que estão
aqui, quantos corações foram destruídos por essas bocas e jogados fora; iguais
a essas bitucas.
Sinto as dores do
mundo, mesmo que não me caibam.
Reclamações eu não
tenho muitas, se for tirar o cansaço e as coisas cotidianas pelas quais todo
mundo passa, me restam dores que não são minhas e problemas que não são meus
(mas que respingam em mim).
Pensar dessa forma
tem feito meus dias serem mais “sobreviviveis”, e tem tirado das minhas costas,
fardos que eu não preciso carregar, que me deixam pesado.
Claro que isso não
facilita nada, afinal, feliz é que eu não tô.
Não tenho do que
reclamar mas também não tenho muito pelo que agradecer, não falo do mínimo para
uma vida decente, como saúde e emprego, mas de coisas que realmente me fazem
feliz, coisas que me fazem sorrir; não tem nada.
Nos cálculos finais,
a soma dos danos, apesar dos pesares e variáveis, é zero.
E zero, você sabe; é
nada.
Viver sem sentir nada
é um inferno e não leva a lugar nenhum.
Meu remédio tirou
minha libido, ao menos antes eu tinha o sexo pra me satisfazer e desviar minha
atenção, me distrair, agora nem isso eu tenho…
Pra que eu pudesse
fumar hoje eu precisei pedir o isqueiro emprestado, e isso foi bom. É sempre
bom lembrar que não estamos sós e que dependemos de alguém pra alguma coisa.
A ilusão da
autossuficiência é a armadilha final do ego.
Quando você se dá
conta da sua insignificância e completa dependência do todo, você se coloca no
seu lugar e aceita que não é tão excepcional assim, você é mais um, e tudo bem.
Reclamações verbais
não tem feito meus dias (no pensamento é inevitável), mas tenho amenizado e me
restringido a uma respirada mais funda e um massagear suave nas têmporas pra
amenizar a cefaleia diária.
Cafeína, nicotina e
música; sem, não sou.
Assim sigo exausto,
fingindo que não tô vendo; mas estou. Eu ainda espero a conta vir, e na minha
cabeça não há paz, não há descanso, não há paz de espírito em mim, sou
transtorno completo, e estou profundamente triste e quebrado.
Acho que tenho um
princípio de uma resposta para as perguntas do começo, mas continuo sem saber
como terminar um texto...
sob controle;
inconstante.


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