Ódio Latente.
Tem dia que é
foda.
Estou preso
num estado patético da minha consciência.
Não consigo
dormir direito, não descanso, tentar parecer forte é cansativo, me manter firme
nas minhas motivações pessoais é um desafio e tanto quando não tenho vontade
sequer de viver.
Em meio a essa
tristeza e frustração constante, faço a única coisa que sei fazer de melhor,
que sempre me moveu, sinto raiva. Cerro meu maxilar, fecho meus punhos,
estreito os olhos e minha visão fica vermelha, desgovernado eu só sei andar pra
frente, atropelando tudo que posso e desviando de idosos que não posso
atropelar no metrô (mas sinto vontade).
Cheguei a uma
conclusão de um texto antigo meu, me questionava na época, o porquê de estar
sempre com pressa, e essa sequer era a pergunta correta, eu não tenho pressa,
vou morrer, eu só tenho ódio, imagine que um carro é movido a etanol e você
enche o tanque dele com diesel, existem duas possibilidades, ou ele sequer vai
ligar, ou vai rodar adulterado, reclamando, já sabe o que acontece comigo né?
Vejo muitos
cortes de podcasts e presto atenção em muitas conversas, a vida das pessoas
parece ser difícil, mas elas superam as coisas, e depois ficam bem, pessoas que
olham pra trás e pensam “Puxa, valeu a pena”, eu só sinto raiva. Algumas coisas
realmente valem a pena, mas uma vez que sou movido por ódio, minhas memórias
são distorcidas, não consigo me lembrar de quando foi a última vez que fiz uma
tarefa simples do meu cotidiano sem sentir raiva e usar aquilo de combustível.
Limpo o chão
com raiva, lavo louça com raiva, vou trabalhar com raiva, trabalho com raiva,
ando na rua com raiva, transo com raiva, vou dormir com raiva, durmo mal, não
descanso e acordo com raiva.
Sinto que vou
infartar esse ano ainda, ou sofrer com pressão alta.
Não existe dor
ou tarefa que eu não possa desempenhar, esses dias meu joelho doeu muito, eu
respirei fundo e dei uma pisada tão firme que doeu a sola do meu pé, aumentei o
ritmo dos meus passos e senti minha perna queimar, até que eu esquecesse da
dor, eu não me preservo, não tenho limites, minha raiva me cega e me capacita a
lidar com qualquer dor, física, e emocional, qualquer questão mental pode ser
espancada o suficiente até deixar de existir.
Me imagino
agredindo pessoas que vejo na rua, me imagino me matando, isso só pode estar
errado, por que eu sou assim?
Pouco falo
sobre, se eu contasse isso pra alguém eu sequer sei se o meu ouvinte
entenderia, é um comportamento sem sentido, não é infundado, mas é ridículo, e
não há um conselho pra isso exceto talvez “Você precisa relaxar, se acalmar...”
pois é, por que nunca pensei nisso não é?
Me lembro de
dias inocentes, eu tinha 8 anos quando joguei zelda ocarina of time, eu me
lembro de chorar de frustração, porque é um jogo difícil até pra um adulto,
quem dirá pra uma criança, mas era desafiador, eu ia dormir pensando em como
fazer os objetivos e desbloquear zonas secretas, era instigante, depois eu ia
jogar de novo e conseguia fazer os puzzles, porque havia passado muito tempo
pensando no que eu deveria fazer.
Eu devia ter parado por aí.
Na época eu esmurrei meu controle e nunca mais consegui jogar até ter um computador. Mesmo sem saber dar nome aos meus sentimentos na época, eu havia chegado a uma conclusão de que odiava desafios.
Não me interessa o que eu não posso destruir.
Me sinto um demônio.
Hoje, adulto,
tenho que lidar com os desafios da vida adulta e não posso esmurrar meu emprego
porque preciso dele, acho que boa parte da minha frustração vem daí, eu odeio
trabalhar, odeio minha condição humana que me faz frágil e anêmico.
Veja bem, eu
não sou preguiçoso, muito pelo contrário, sou uma máquina, carregaria o mundo
nas costas pela motivação certa, se meus amigos estivessem na pior,
incansavelmente eu não pararia até resolver, ou até morrer de tanto esforço,
enquanto pudesse mexer qualquer membro que fosse eu o faria.
Mas quando
isso se estende a minha pessoa, passa a ser desinteressante, não tem nada que
me interesse, nada que eu queira, nenhum conhecimento, nenhum prato diferente,
nenhum novo idioma, nenhum livro, nenhum filme, nenhum jogo, nada.
Entretanto.
Tenho
praticado um exercício, eu penso em água, cristalina e calma, posso ver o meu reflexo nela e até mesmo caminhar sobre ela (exatamente como o filho da puta que faz
isso na bíblia), pensar na água tem me ajudado, um exercício de meditação.
A água pode
ficar agitada, ferver, congelar, evaporar, escoar, formar ondas, redemoinhos e
cascatas, isso é exatamente como as emoções humanas, como a minha cabeça. A
água não pode ser pega com mãos nuas, mas pode ser colocada em baldes e outros
recipientes, a água não pode ser controlada, mas sob a influência de
determinados estímulos externos (e se combinada da maneira certa com outros
elementos) ela pode formar ondas, furacões e cachoeiras.
Pensar nisso
tem me ajudado (de forma primitiva) a me manter sob controle, posso influenciar
meus comportamentos e pensamentos, posso controlá-los de certa forma, mas ainda
não sou muito bom nisso.
Eu discordo disso porque não sou como água, sempre fui como o fogo, mas mudanças de perspectivas são sempre interessantes, quem sabe funciona?
Por enquanto,
vivo um estado de ódio latente, ele fica ali, parado como a água, não, na
verdade, como algum monstro abissal que espreita por sob a água, submerso, e
emerge em algum momento, destruindo tudo.
Eu juro que
estou tentando, é difícil controlar meu ódio, é difícil esquecer tudo isso, é
difícil ter vontade, é difícil não colapsar, faço o que posso.
Desgostoso e irado.
Inconstante.
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