Claire.

Ofegantes, suados, com os músculos retraídos, trocávamos olhares enquanto transavamos depois de muito tempo, o famoso sexo com saudade. Parecia que cada célula do meu corpo precisava dela, ali, naquele momento, exatamente do jeito que estava acontecendo, e nada mais importava, quase como se não houvesse um universo lá fora, só existíamos eu e ela.

 

Ela sorria, revirava os olhos, mordia os lábios e me pedia pra parar, sabendo que eu não pararia, e ela não queria que eu parasse de verdade, era tudo uma provocação que eu adorava, e ela sabia que eu adorava.

 

Apertei suas costas com as pontas dos dedos e a puxei pra perto intensificando os movimentos e respirando cada vez mais fundo, puxo seu cabelo pela parte de trás, próximo a nuca e ela olha pra cima, suas pernas tremem, seu corpo inteiro treme e ela me abraça, me aperta como se eu fosse tudo que ela tivesse, como se não quisesse me perder, e então... Começa a chorar.

 

Podia ver o desespero em seus olhos.

 

Uma cara que misturava angústia, desamparo, paixão, tristeza, felicidade, cansaço, disposição, ela era o tudo e o nada ao mesmo tempo, e implorava pra que eu continuasse. Alguns instantes se passaram até que eu atingisse o orgasmo, e desmaiasse por completo do seu lado, tive forças apenas para levantar, pegar um cigarro, acendê-lo e ficar o observando queimar enquanto ela se aninhava em meu peito.

 

- Eu não quero que você me deixe Luke.

- E por que eu faria isso?

- Tenho te sentido distante nos últimos dias... Você está isolado, frio, ninguém tem notícias de você, nem sua mãe! Nem o porteiro!

- Tenho o péssimo hábito de escalar o muro e subir pela janela, os porteiros só me veem uma vez por mês quando passo com as compras do mês, aproveito para assegurar que estou vivo, no mais posso dizer a cada um que cheguei no plantão do outro, como eles se odeiam, ninguém nunca vai me desmentir.

- Você é um arrombado sabia? – Disse ela rindo de canto.

- Se não fosse assim você não teria se apaixonado por mim.

 

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Era 2017, Claire e eu estávamos na faculdade, mas eu ainda não a conhecia. Ela fazia faculdade de direito e eu fazia de T.I., era quase improvável que nossos caminhos se cruzassem, o campus era enorme e nossos dormitórios ficavam  distantes, nada em comum.

 

Infelizmente, minha faculdade era daquelas em que os alunos moravam, tinha empregos, equipes de diversos esportes, atléticas estudantis e grupos de estudos dos mais variados tipos, era uma loucura.

 

Muitas equipes de esporte eram muito populares, como a galera do futebol americano, rugby, vôlei, basquete, ginástica e luta olímpica, mas nenhum desses grupos me interessava, eu odiava regras e queria me mover livrementem então fundei o grupo clandestino de parkour na faculdade, tínhamos apenas 6 integrantes, mas éramos os mais descolados, e ninguém ousava mexer com a gente, porque éramos doentes, punks, anarquistas e violentos deliberadamente.

 

Invadíamos a cantina pelo telhado durante a noite pra roubar comida, pixávamos os muros do campus, roubávamos das carteiras dos jogadores de futebol e assistíamos eles brigarem entre si, e teve até um dia que os caras invadiram o dormitório feminino pra fazer fotos e divulgar ilegalmente, felizmente não participei disso, porque dois deles foram pegos e presos, nos deixando apenas com 4 membros.

 

Eu sempre tive porte atlético, mas odiava competir, não fazia nada que não fosse do meu interesse, sempre que me via frente a alguma competição eu perdia de propósito e todo mundo ficava com raiva porque eu nem tinha me esforçado, e todo mundo sabia que eu era muito habilidoso fisicamente.

 

Eu simplesmente dizia que não tinha nada haver com aquilo, e que não era obrigado a corresponder as expectativas de ninguém, quando eu tivesse interesse eu me esforçaria.

 

Numa dessas, um dia descobriram que estávamos roubando os jogadores e eles vieram atrás de nós, um dos nossos amigos foi pego e estava com uma faca, acabou esfaqueando dois jogadores e os outros saíram correndo enquanto ele cuspia o próprio sangue neles, felizmente pra ele não deu nada, mas ele mesmo se cansou e saiu da faculdade.

 

No mesmo dia, na minha fuga, eu entrei por uma das janelas do vestiário feminino, e me deparei com Claire, a garota mais linda que eu já tinha visto na vida, tinha um corpo maravilhoso, cintura fina, quadris largos, seios médios (kkkkk) seu cabelo era preto bem escuro, porém sua pele era clara, seus lábios eram vermelhos, ela era um contraste perfeito, e estava... Nua.

- Que porra é essa? Quem é você?

- Calma, eu posso explicar! – Disse sem conseguir conter a gargalhada; que situação...

- Eu vou chamar a segurança, sai daqui agora seu tarado! – Disse ela se cobrindo com a toalha.

- Calma, será que dá pra se acalmar porra?!

- SEGURANÇA! SOCORRO, TEM UM TARADO AQ...

- Caralho, vou ser obrigado.

Avancei na direção dela, e a contornei, ficando atrás dela e tampando a boca dela e puxando seu cabelo. Suspirei.

- Olha só, eu vou te soltar e você vai ficar quietinha ok? – Fui soltando-a lentamente enquanto ela ofegava, devia estar com medo. – Eu estou fugindo de um macacos malucos do time de futebol que querem me bater até a morte, entrei na primeira janela que eu vi pra salvar a minha pele, infelizmente era a sua, e infelizmente você estava nua bem na hora que eu entrei.. Ou felizmente.

- Espera que eu acredite nessa sua história?! – Disse ela me empurrando com o quadril e se virando de frente pra mim.

Ficamos ali nos olhando nos olhos, o quarto era iluminado por uma fraca luminária amarela, mas eu conseguia claramente notar que ela tinha lindos olhos castanho esverdeados, porém estavam negros naquela ocasião, por conta da iluminação, estavam escuros como a noite. Decidi quebrar o silêncio.

- Você acredita se quiser ok? Mas eu não tenho porquê mentir, você não me conhece mas não tenho razões pra entrar no vestiário feminino assim do nada, posso parecer maluco, mas ainda não cheguei nesse nível.

- Ok, suponhamos que você esteja falando a verdade, mas eu não tenho nada a ver com isso, além do mais, você já passou tempo demais aqui, o suficiente para despistá-los, não sei porque eles estão te perseguindo e não vou passar pano pra você, cai fora!

- Tá bom nervosinha. Já estou de saída! – Disse em tom de deboche enquanto dava uma olhada no quarto.

Uma pilha de roupas estava jogada sobre a cama, alguns livros bagunçados jogados sobre a escrivaninha e um computador ligado com algum artigo aberto.

- Você é bagunceira hem... Caralho, eu que achava meu quarto desorganizado...

- Isso porque ainda não me viu comendo com a mão ou coçando a minha vagina e cheirando depois. – Disse ela tentando soar grosseira.

- Isso não combina com você princesa, seu pior defeito é ser bagunceira, mas se for verdade mesmo, você está solteira?

Ela revirou os olhos, andou em direção a porta e abriu fazendo um gesto de “cai fora”.

- Ok,entendi. Valeu por ter me acolhido ham... – Fiz uma pausa dramática pra ela dizer o nome dela.

- Não vou dizer meu nome pra um maluco que acabou de invadir meu quarto e me ver pelada.

- Ah, qual é, a gente teve a maior conexão, não vai me dizer nem seu nome?

Ela hesitou por um instante.

- Claire. – Ela suspirou. – Agora cai fora vai, eu tenho prova amanhã de manhã e só tenho 5 horas de sono.

Lancei um sorriso de cabeça baixa pra ela, enquanto olhava pra cima, olhava pra ela, franzindo a testa, virei as costas e saí do quarto.

- Espera! – Ficou um silêncio constrangedor. – E você, como se chama? – Ela disse com uma cara de quem não concordava com o que estava fazendo.

- Pode me chamar de Luke. – Disse sem virar as costas. – A propósito, boa prova amanhã; bagunceira.

 

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Depois de sair do transe, me levantei e fui pelado em direção a cozinha.

- Vou cozinhar alguma coisa pra gente comer, algum pedido especial pra hoje bagunceira?

- Quero só aquela sobremesa.

- Aquela?

- Aquela.

 

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Fui embora por cima da situação, tentando parecer descolado e desapegado, mas eu sabia que tinha acabado de ficar obcecado por ela.

Naquela noite eu nem consegui dormir.

Invadi o sistema da faculdade pra descobrir tudo que eu pudesse sobre ela, a desgraçada tinha mentido o próprio nome. Na verdade não mentiu, mas omitiu, Sophie Claire, 19 anos, diretamente do Colorado pra algum lugar entre meu atrio e meu ventrículo esquerdo, e com certeza naquele momento faltava oxigênio no meu sangue.

Eu tinha um plano, e ela seria minha, nem sabia se ela tinha namorado ou se era lésbica, mas que se foda, eu ia morrer tentando, era teimoso feito uma mula e não desistia até conseguir o que eu queria, esse era o objetivo pelo qual eu iria me esforçar.

Naquela noite eu estava arrumado como nunca antes, cheiroso, tinha até tomado banho, estava com uma cesta de piquenique, dentro tinha umas fatias de pizza, alguns bolinhos e a minha especialidade, mousse de limão com oreo.

Furtivamente pulei o muro da ala feminina e sorrateiro como um gato eu escalei o parapeito da janela com a alça da cesta na boca, até hoje não sei como fui capaz de fazer isso.

Ela estava lá, estudando, quase pegando no sono, fiquei olhando por uns segundos até eu perceber que meu braço estava ficando cansado de me manter pendurado, dei umas batidinhas de leve na janela (que estava trancada dessa vez), ela se virou e arregalou os olhos.

Ela caminhou em direção a janela, estava de camisola de cetim, descalça, com o cabelo preso e uma caneta na orelha, linda como a porra.

- Que porra é essa Luke? – Disse colocando as mãos na cintura.

Eu entrei e me joguei no chão.

- Achei que meus ombros fossem explodir. – Disse ofegante.

- Já pensou em usar a porta?! Como qualquer pessoa normal faria!

- Eu sou assim, não gosto de ser normal ok? Aí, tá com fome?

- Luke, olha só, você não pode ficar invadindo meu quarto assim. Eu nem te conheço, e eles podem acabar pegando a gente, eu sou bolsista e não posso perder essa vaga.

- Você tá com fome ou não?

- Você é inacreditável.

- Você questiona os meus métodos mortal? Acha mesmo que eu ia deixar eles me pegarem? Fica tranquila, me assegurei de não ser visto, conheço esse campus como a palma de minha mão, estudei toda a planta pra roubar coisas por aí.

- Como é?

- Deixa pra lá. Olha, se você não tá com fome, eu tô, deu um trabalhão pra fazer isso e pra arrumar essa maldita cesta de piquenique, ta quebrando o clima.

Ela estava com os braços cruzados e uma expressão incrédula, quando de repente relaxou.

- Eu tô com fome sim, e de TPM. Tô ridícula, não queria ser vista nesse estado.

- Ridícula? Hm... Olha, trouxe pizza de quatro queijos, alguns bolinhos e minha especialidade gastronômica, mousse de limão com oreo.

- Você... Fez tudo isso pra mim?

- E pra mim né, achou que eu ia ficar olhando você comer?

Ela deu um sorriso muito gostoso, Deus, eu estava louco por ela, não tinha mais volta, se eu pudesse olhar pra minha cara eu diria que estava com os olhos brilhando, abri a cesta, estendi uma toalha de mesa e coloquei tudo organizado.

- Viu só, organizado, você nunca conseguiria tal feito.

- Vai se foder.

Dei uma risada alta.

- Calma nervosinha, tô brincando contigo. Como foi a prova?

Ela fez uma expressão de quem puxava uma lembrança traumática na memória.

- Péssima. Eu fui muito mal, meu estágio ta acabando comigo, não consigo estudar e dormir tão bem quanto deveria.

- Vou te ajudar com isso, comprei um vade mecum, provavelmente chega amanhã pelo correio, vou engolir ele e te ajudar com a sua matéria.

- Por que está fazendo isso Luke? Não precisa, você não precisa me impressionar pra me comer.

- Como é? – Perguntei ofendido. – Olha, eu poderia comer qualquer garota dessa faculdade sabia? Mas cá estou eu com uma cesta de piquenique no seu quarto.

- Enfia no cu então! Vai lá comer elas, não pedi nada disso.

- Por que está agindo assim? Olha, eu me expressei mal ok? Eu normalmente não me interesso por qualquer garota, sei que parece clichê, algo que um garanhão diria, mas olha pra mim, eu sou uma aberração da sociedade, um punk fudido, e vou ser sincero, eu senti algo muito forte por você. Não quero apressar nada, mas quero dizer que não vai se livrar de mim tão fácil, a menos que deixe claro que não está interessada. Eu não costumo desistir do que eu quero, e Sophie, eu quero você.

- Se queria me assustar conseguiu. Como sabe meu nome? Olha, eu tô me esforçando ok, mas eu não te conheço Luke, você é só um maluco que tem o péssimo hábito de entrar pela minha janela.

- Olha, eu só perguntei sobre você por aí ok? Fica calma. E eu acho que estou indo rápido demais, sou meio imediatista mesmo, mas quero deixar claras as minhas intenções desde o princípio sabe? Eu não fiz tudo isso à toa, eu estou aqui desde o começo dizendo que quero que seja minha.

- Eu queria dizer que não, mas... Sabe, eu pensei em você a noite passada inteira, você tem essa coisa de quebrar as regras, e isso me atrai embora eu seja estudante de direito (ironicamente), mas se você estiver de gracinha com a minha cara, eu juro que te arrebento e acabo com a tua vida, eu jurei que nunca mais ia acreditar em um homem na minha vida.

- Come um bolinho vai.

- Tem de chocolate?

- Claro bagunceira.

Ela sorriu de novo, eu era o homem mais feliz do mundo.

 

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Terminamos de comer nosso macarrão a carbonara e eu trouxe a nossa sobremesa, com o tempo fizemos algumas modificações, Claire preferia morangos ao invés de biscoitos, ela dizia que ficava muito enjoativo, e realmente o morango dava um sabor único, então readaptamos meu prato para a versão ©laire.

Claire então veio com aquele papinho...

- E se a gente visse um filme?

- AHHHHHHHHHHH NÃO! De novo não!

- De novo sim. – Ela disse com um sorrisinho maldoso e pegou o controle da TV.

Já tínhamos assistidos todas as animações possíveis e todos os filmes em que algum cachorro morre no final em que a Claire se desmanchava em lágrimas, mas o campeão de bilheteria era a viagem de chihiro, eu já tinha decorado as falas daquele maldito filme, e era justamente ele que ela estava colocando.

- Claire isso não é a vida real, é um desenho tosco com escravidão infantil, e me dá medo na parte que os pais dela viram porcos famintos.

- Pipipipopopo, cala a boquinha cala.

- Maldita. Você me dobra toda vez, sua sorte é que eu te amo.

 

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Havíamos completado 3 meses juntos, e eu ia todas as terças e sextas dormir com a Claire, tirando algumas visitas esporádicas secretas para levar chocolates na TPM e pra consolar ela após alguma prova traumática. Aos finais de semana ela ia visitar os pais dela e eu praticava alguns atos de vandalismo só pra não perder o costume, mas conviver com ela tinha me feito perder um pouco do interesse nisso, eu só queria saber dos dias em que a veria novamente.

Tínhamos feito um trato, eu iria ver os filmes que Claire gostava, e em troca ela iria ouvir as músicas que eu indicava pra ela. Claire era uma grande apreciadora do cinema e adorava filmes horríveis com roteiros podres, especialmente filmes de romance franceses, e eu gostava de música ruim, fiz ela ouvir várias bandas do movimento punk, grunge e também acabamos conhecendo muita coisa juntos.

Era uma troca muito interessante, e fortalecia muito a nossa relação, junto com isso ainda tinha mais uma tradição nossa, pois uma vez por semana, um de nós cozinhava algo pra gente jantar, mas como a Claire trabalhava, muitas vezes eu tinha dobradinhas, e sinceramente, não me importava, o sorriso dela era o mais importante pra mim.

Eu não tinha exatamente um emprego, eu hackeava o sistema da faculdade pra mostrar que minha mensalidade estava sendo paga e eventualmente desviava o pagamento de algum aluno pra pagar minha mensalidade, e depois a faculdade reconhecia algum problema com o pagamento e acabava assumindo o prejuízo e estornando o aluno.

Enquanto meu esquema não era descoberto, eu ia tocando o barco, já faziam 2 anos que eu estava nessa, e francamente, eu era ótimo encobrindo meus rastros.

Porém a minha faculdade não era novidade, eu era autodidata e melhor que todos os meus professores, eu estava ali só pelo diploma, então dedicava meu tempo a decorar leis e artigos para ajudar a Claire nas provas, de quebra eu ainda seria um especialista em código penal, uma das minhas maiores habilidades era reter informações e decorar coisas.

 

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- Vai acordar que horas amanhã?

- Acho que umas 9:00. Preciso estudar para as provas finais e organizar umas coisas.

- Tudo bem, me acorda, vou fazer café pra você.

 

 

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Estamos de volta em alguns meses atrás, eu já havia terminado a minha faculdade e Claire estava no terceiro ano.

Eu estava parado na frente da faculdade, tinha ido buscar a Claire pra passar o final de semana comigo, ela estava saindo com um grupo de amigos, estava linda de vestido branco e all star amarelo, e um cara a abraçava; Miles.

- Oi fedorento.

- Quem é ele?

Todo mundo fica me olhando.

- Ah, esse é o Miles, meu colega de classe. Miles, esse é meu namorado Luke.

Miles estendeu a mão pra me cumprimentar, eu peguei o maço de cigarro, acendi, traguei e soltei a fumaça mais densa que já soltei na vida.

- Se não quiser perder essa mão, acho melhor não abraçar minha namorada de novo.

Ele arregalou os olhos e ficou vermelho. Miles era forte, bem bombado, mas sentiu a acidez de minhas palavras, e logo reconheceu que nem toda a força do mundo me impediria de cortar sua garganta com a lâmina do meu canivete suiço.

- Eu não tenho nada a perder, saia do meu caminho ou eu te atropelo; bonitão.

Outra amiga da Claire interferiu.

- Gente que calor né? E se a gente fosse tomar um sorvete?

Joguei a bituca do cigarro mais rápido que eu já fumei fora.

- Eu passo. – E saí em direção ao meu Opala.

Todos olharam para Claire.

- Ta tudo bem gente, ele é assim mesmo, eu... Acho que vou indo, bom final de semana pra vocês. – E deu um sorriso meio forçado indo em direção ao carro.

Quando Claire entrou no carro eu imediatamente a encarei.

- Que porra foi essa?

- Ele é só meu amigo! Não precisava disso tudo!

- Quer que eu veja outro cara abraçado com a minha garota por aí e fique numa boa?

- Eu já disse pra ele parar com isso, mas ele continua, eu simplesmente aceitei...

- Quer que eu faça ele parar agora?

- Não! Não tem necessidade, vou conversar com ele de novo, não é assim que se resolve as coisas.

- Vou matar esse desgraçado.

- Os pais dele são advogados muito ricos, vai acabar na cadeia, é isso que você quer?

- Tanto faz, eu pago o preço pelos meus atos, morro com o orgulho intacto.

- Para de ser assim. Eu vou resolver isso ok? Não vamos estragar nosso final de semana, eu tava morrendo de saudade.

Fiquei em silêncio por um tempo.

- Tenho uma coisa pra você.

- O quê?

Peguei uma caixa de bombons no banco de trás, eram os favoritos dela.

- Você lembrou! São meus favoritos! Ela sorriu, me abraçou e me deu um beijo lento e longo.

Por um instante toda a minha raiva passou, ela me tinha nas mãos, sabia exatamente como me dobrar, impetuosa maldita, com toda aquela sutileza enrustida, exercia controle absoluto sobre mim.

- Ainda vamos conversar sobre isso.

- Ta bom fedorento, agora vamos porque o tempo é curto e temos muitas músicas e filmes pra atualizar no nosso catálogo.

 

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De volta aos dias atuais, ela estava do meu lado vendo o filme, e sorrindo enquanto eu mexia no cabelo dela.

Naquela noite transamos de novo, só que dessa vez foi mais lento, sem tapas, arranhões ou puxões de cabelo, pela primeira vez quis contemplar a beleza de Claire, quis viver aquele momento, desejei aquela pele, desejei aquela alma, e me transbordava o sentimento de amor, era incontrolável; ela era a mulher da minha vida.

Depois de dormirmos aninhados, tomamos café e levei ela de volta pra faculdade.

- Até mais fedorento, amo você.

- Eu te amo mais.

- Não, eu que amo, e não se fala mais nisso!

Acendi um cigarro.

- Vai tomar no seu cu, antes que eu me esqueça.

Claire me mostrou o dedo, o que entre nós era um dos maiores gestos de amor, e eu amava isso.

 

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Voltei pra casa, lavei a louça e fui dar uma checada na internet, eu não tinha perfis nas redes sociais, era integralmente contra essa cultura massificada de vender sexo enrustido, mas eventualmente checava as coisas pra ver como estava o mundo por aí.

Foi quando acessei o perfil de Claire e me deparei com uma foto dela com Miles.

Aquilo me atingiu como um soco no estômago, me deu náusea e queimação, meu coração parecia que ia sair pela boca, eu ia implodir.

Era só uma foto, mas eu sou hacker, é instintivo investigar, e eu precisava levar aquilo a fundo, pois já estava me incomodando. Não era pra aquilo estar ali, depois de tanta discussão, eu havia deixado claro que não iria admitir aquilo, por que ela ainda estava fazendo?

Não foi difícil descobrir a senha dela, sabia de todas as datas, animais, filmes favoritos e padrões numéricos que ela usava, a senha era Chihiro@felpudo@1401 (Filme favorito/Nome do primeiro cachorro/data de aniversário), e pro meu imenso desprazer eu senti instantaneamente que não deveria ter feito aquilo.

Conversas dela com o Miles, flertando, fotos íntimas, mensagens falando sobre mim e sobre o quanto eu não deveria saber daquilo, me ridicularizando, meu mundo desmoronou.

Eu não sabia o que sentir, e tampouco conseguirei expressar em palavras, escrevi um e-mail e programei o envio para 00:00, peguei as chaves do carro, uma garrafa de conhaque, meus cigarros e saí sem rumo.

No rádio do carro tocava Loathe – “it’s really you?” e eu me deixei levar pela energia da música, eu nunca acelerei tanto, e por sorte, as ruas eram só minhas, no horizonte eu avisto uma ponte, acelero, eu não tinha mais nada, nada fazia sentido, e meus últimos anos tinham sido uma mentira, um circo dos horrores, e eu era o palhaço.

 

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De: lukeguy@proton.me

Para: sophieclaire@gmail.com

Assunto: Eu sei de tudo.

Sabe, eu tive bons momentos com você. Eu realmente te amei.

Como você bem sabe, eu fui bom em muitas coisas durante minha vida, e tive pouquíssima vontade de provar isso para as pessoas, sempre fui autossuficiente e fora do eixo, achei que por isso fosse especial pra você.

Me lembro de todas as noites em claro decorando o código penal pra te ajudar nas provas, me lembro de separar cada cd em ordem cuidadosamente para te mostrar tudo na ordem que era correta na minha cabeça, me lembro de praticar receitas novas pra poder cozinhar coisas pra você, lembro de cada vez que fui ao shopping e fui contra meus impulsos violentos com o capitalismo pra comprar seu chocolate favorito; lembro de tudo.

Eu sou desgosto completo hoje, amargura, e sinceramente, não consigo ficar bravo com você, e espero que seja muito feliz, mas sou incapaz de te perdoar, você traiu minha confiança, e me matou.

Quando receber esse e-mail, nem eu sei aonde eu vou estar, pegue a chave do meu apartamento com o porteiro, ele me viu dessa vez, pegue suas roupas e o que mais quiser, não faz diferença.

Fui honesto com você esse tempo todo, verdadeiro, abri meu coração e me dediquei integralmente a você e em troca fui apunhalado pelas costas, obrigado Sophie Claire.

Você mudou minha vida, virou do avesso, me fez confiar nas pessoas e ver beleza no mundo de novo, e depois me mostrou que eu nunca deveria ter te dado ouvidos, e que eu estava certo no fim das contas, você arruinou tudo e validou meu ponto, maldito o dia que eu pulei aquela janela, realmente a minha inconsequência me conduziu ao meu próprio fim.

 

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Naquela manhã eu acordei, passei um café e liguei a TV no noticiário, quando vi uma notificação de um e-mail na minha caixa de entrada, abri o e-mail mas fui atingida pela manchete:

 

“Jovem morre após cair de uma ponte”

Lucas Scott dirigia embriagado e seu carro despenca de uma ponte, causando sua morte imediata, paramédicos não conseguiram socorrer o jovem de 26 anos.

 

Meu café nunca foi tão amargo.

Quando li o e-mail, meu sangue esfriou, derrubei a xícara e um dos estilhaços cortou minha perna.

Nada mais fazia sentido, o que eu havia feito?

Esse é o fim?




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