Dia de greve.

É o primeiro texto que eu escrevo com viés politizado; ainda sobre tristeza e melancolia.

 

Hoje não fui trabalhar, o metrô de São Paulo está de greve, tirei o dia pra colocar a mão na consciência e tentar entender algumas coisas.

 

É um momento crítico para a humanidade, de ruptura, e sinceramente, acho que só conseguimos seguir sem uma guerra civil ou uma terceira/quarta/quinta guerra mundial porque não estamos todos confinados no mesmo espaço.

 

A divergência de opiniões e a guerra ideológica são amenizadas e diluídas em pequenas doses graças as limitações territoriais, incompreensão de outros idiomas por parte marjoritária das populações, diversidade cultural, pelos bodes expiatórios artísticos e pela fachada da empatia com o próximo.

 

Me voltando para os bodes expiatórios, tem um valor imprescindível para a humanidade, é a melhor maneira de travar uma guerra da forma mais saudável possível, temos os concursos de miss universo, miss regionais, futebol, basquete, natação, fórmula 1 entre muitos outros, que tiram nossa atenção de problemas maiores e nos fazem focar em competições sem sentido que canalizam nossas potencias para que não peguemos em armas e resolvamos nossas diferenças como nossos ancestrais estúpidos faziam.

 

A compreensão se tornou muito maior, demandando uma paciência que ninguém estava pronto pra ter.

 

Pensando nisso, tento aplicar esse parâmetro na minha vida, que é a parcela que me cabe, além de incentivar cada um a fazer sua parte, tentar explicar que de grão em grão a galinha morre engasgada deixando de produzir ovos e se tornando estatística no galinheiro, sendo rapidamente substituída por uma mais jovem e mais produtiva alimentada por alguma super ração cheia de hormônios.

 

O conformismo é necessário pra quem quer continuar vivo.

 

Questionar não tem me levado a lugar nenhum, nunca levou, só me deixa puto, cego, exausto e indignado.

 

Hoje tenho estabelecido que vivo pelos meus amigos e por minha família, sei que eles precisam de mim, e eu preciso deles, essa troca sustenta meus dias. Já não penso em me matar com tanta frequência, mas em economizar pra comprar uma cartela de ovo da galinha morta; mistura pra semana toda.

 

Arrumo a cama do Gustavo e da Debora pensando que morar com eles foi a melhor escolha que eu fiz, prolongou minha vida e me trouxe novas perspectivas, me trouxe uma ideia diferente da que tive outrora acerco da realidade que nos rodeia.

 

Cada dia que passa, entendo que cada um tem seus motivos pra fazer o que faz, e isso explica muita coisa, e que nem sempre as pessoas terão a mesma paciência que eu acredito que deveria ter.

 

Por isso o mundo é injusto, porém justo ao mesmo tempo.

 

A potência de uns sobrepuja a de outros. Quanto maior for sua vontade em prol de um objetivo, maior o seu alcance, maior o seu esforço, maior sua entrega, maiores seus resultados, o mito da meritocracia rege as mentes, esforça-te que te recompensarei.

 

Por esse motivo muitos acumulam capital, outros passam fome, por esse motivo vivemos em regimes políticos e ideologias influenciam um país inteiro, mesmo que a maioria não concorde, todos pagam o preço, a potência e o poder caminham lado a lado, e os que reclamam sempre vão olhar a ascenção alheia se queixando da injustiça.


É impossível ter potência frente a fome, frio, doença e exaustão física e mental, a maior arma dos conquistadores sempre foi nos distrair, como num truque de mágica, damos um espelho aos índios e colonizamos todo o seu povo, damos um lanche do mcdonalds e uma dose de uísque com energético, água, internet, gás encanado e os escravizamos criando uma relação de dependência e subserviência.

 

Depois de algumas doses de dopamina vendo alguns tiktoks e lives de NPC, posso realizar a tarefa mais esdrúxula e hercúlea do mundo, e vou chegar em casa realizado, pois o trabalho dignifica o homem.


Nem todo mundo tem oportunidade, alguns tem e não abraçam, alguns apenas assistem, alguns trabalham 60 anos pra poder ter uma aposentadoria tranquila enquanto alguém limpa sua bunda.

 

Os mais velhos tentam passar alguns valores para as novas gerações que estão cada vez mais automatizadas e ansiosas, na era do imediatismo a lealdade se ofusca, não há espaço para considerar quantas árvores serão podadas para a construção do seu castelo, e o seu castelo importa mais que a camada de ozônio, você não se importa não é? Ninguém se importa.

 

Assisto o fim do mundo de camarote e agradeço por existir cerveja e cigarro o suficiente para acompanhar a degradação da humanidade.

 

Agradeço por ter aprendido a amar, por poder transar quando quero, por existirem farmacos para quase todas as doenças que existem e que podem ser contraídas no transporte público, pra que eu me cure e possa trabalhar mais, agradeço por meus amigos e pela minha família, agradeço por ser ignorante ao ponto de ainda conseguir acreditar em Deus no ápice da minha ignorância, e por acreditar que dele proverá salvação e acalento.

 

Sigo cego, afogado em conformismo e complacência, alternando entre potência e demência, e enquanto a fome não me assola penso o suficiente para que eu construa meu castelo às margens de um rio tranquilo aonde não precisarei derrubar árvores para ser feliz sobrevivendo da forma mais humilde possível.




 

Dissociando;

inconstante.

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