Amor no superlativo - Dependência de quem julga não saber amar (e nem ser amado).

Há tempos não conseguia me sentar com a cabeça vazia. Amanhã mesmo trato de cutucar algum demônio pra que me atormente por tempo indeterminado, a paz não é opcional, pra um masoquista viciado em tristeza e mudança como eu.

 

Não vou mais me mudar, e isso tirou uma tonelada dos meus ombros, como sei que tirou dos ombros dos meus amigos, escrevo esse texto pra eles, e pra você que está lendo também.

 

É só uma atualização, de forma mais íntima, me imagine sentado numa máquina de escrever e depois te enviando esse texto em forma de carta, assinada e enderaçada, ou melhor, imagine que estamos numa mesa de bar e eu estou te contando as últimas novidades enquanto sorrio e gesticulo exageradamente com todo o entusiasmo que faz parte da minha personalidade.

 

Esse texto pode parecer feliz mas não é.

 

Eu nunca estou 100% feliz ou satisfeito.

 

A minha realidade ter melhorado um pouco não significa que as olheiras diminuem ou que as rugas de preocupação não vão aumentar, não significa que amanhã mesmo pode se iniciar um período tortuoso na minha vida, cheio de incertezas e intempéries.

 

Considere auto sabotagem, ansiedade, mas considere que eu talvez esteja pronto pro pior, é a minha forma de me proteger, afinal, posso não ser tão forte quanto acredito ser.

 

Essa noite sou lembrança, de tudo que passei, perdão, que passamos pra chegar até aqui, Gustavo, Débora.

 

Não consigo me lembrar quando foi a última aventura que estive envolvido que vocês não estavam também, que não participaram indiretamente, vocês são minha família, e eu me sinto como um personagem de anime transitando entre arcos e superando novas dificuldades todos os dias.

 

Talvez eu esteja cansado de superar.

 

As minhas razões pra viver são claras e cristalinas (gosto de como essas palavras soam tão limpas quanto sua terminologia, parece que minha boca fica limpa quando eu falo), minha razão pra viver são aqueles que amo, acho que nunca soube muito bem expressar isso.

 

Eu não vejo motivo para me formar ou para contribuir com a sociedade, não existe nenhuma profissão que eu não possa aprender, não existe nada que eu não possa fazer, eu sou talentoso e esforçado, mas não tenho interesse, não é do meu interesse e muito menos da minha índole alimentar o sistema, a máquina com meus talentos, não quero ser parte de uma engrenagem da sociedade que é tão injusta e suja.

 

Me contento com pouco, um salário suficiente, conforto suficiente, enquanto puder ter, terei, quando não, me adapto, pode soar como conformismo ou qualquer outro termo que queiram usar, eu quero que se foda, o ponto é que o que eu não posso ficar sem, são vocês.

 

Dinheiro nenhum paga o que eu sinto por vocês.

 

Sinto um clima de despedida no ar, não sei o porquê, e espero que seja um sentimento e não um presságio, pois quero dividir muitos momentos com vocês, e ajudar no que for necessário, quando for necessário, mas estou flutuando, em uma nuvem fofinha e que estranhamente é quente e acolhedora, ela não está carregada de tempestade, é como uma nuvem do jogo do Mickey que eu costumava jogar no meu mega drive.

 

Tem momentos que me pego parado com a cabeça vazia, limpa, em standby, e eu quase sinto paz, mas acho que isso é só o meu cache limpo, o sistema sobrecarregou e eu dei reboot por um instante; essa noite é um exemplo perfeito disso.

 

Estou sozinho comigo mesmo, tentando organizar ideias, nem consigo tirar elas do abstrato, não consigo organizar o que não tem forma, minha cabeça sempre funcionou assim, talvez por isso eu seja tão bom com improviso ou com qualquer coisa que eu me proponha, como se eu tivesse acesso irrestrito a uma rede compartilhada de ideias em superposição, arquivadas e catalogadas, apanho as pastas e leio o conteúdo conforme a necessidade.

 

Minha mente é livre, minha alma é livre, e o contraponto dessa liberdade é a forma que sinto as coisas, porque não posso ser livre enquanto amo alguém incondicionalmente.

 

Como tudo no mundo, existe um equilíbrio que balanceia as coisas, vocês mantém meus pés no chão, me puxando pra realidade, para preocupações do cotidiano, pra responsabilidades que eu estou pouco me fodendo, mas que provém nossa realidade, então eu sigo, sigo trabalhando, sigo fazendo coisas de pessoas normais, pra poder estar com vocês pelo tempo que pudermos.

 

Quando não pudermos, me alço a minha liberdade, eu não quero colocar outras pessoas nesse posto, e não quero existir sem vocês nesse posto, vocês são como a chama vital que me mantém vivo enquanto acesa, e quando ela se apagar, bom, isso é auto explicativo.

 

Essa noite vou me permitir descansar, faz tempo que não consigo.

 

Vou me deitar e relaxar, sei que amanhã tem mais trabalho, sei que amanhã tem mais sofrimento, que serei julgado, que definharei um pouco mais e que terei que lidar com a realidade que eu não quero lidar, que eu nunca quis.


Eu odeio o mundo real, mas amo o asfalto, eu odeio a fome e a miséria, mas amo o cheiro de chuva, eu odeio calor, mas amo ver pessoas felizes por realizarem seus sonhos, com sorrisos tão radiantes quanto o sol, eu odeio as pessoas, mas amo as pessoas verdadeiras, eu odeio injustiça, mas amo generosidade unilateral, pau no cu do altruísmo, eu odeio egocentrismo e narcisismo, eu odeio quem não sabe reconhecer sua insignificância, mas amo aqueles que sabem que não somos nada sem ou outros, mesmo os que odiamos, mas principalmente os que amamos; e eu amo vocês.

 


eu não passo de uma criança que pouco sabe sobre a vida, mas que se julga no direito de escrever no seu diário idiota sobre suas alucinações e amigos imaginários.

inconstante.

 



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