Sobre os tesouros e o porto.
Eu não tenho nada do que eu quero, mas eu tenho todos de
quem preciso.
Não sou do tipo de pessoa que busca aquisições materiais,
tenho o essencial para minha satisfação e entretenimento mínimo. Sou um
colecionador de relações, um colecionador de momentos, um colecionador de
memórias, de sensações.
Ainda erro acreditando que não sou importante; que sou
irrelevante. Aos poucos venho percebendo que tenho um grande valor pra algumas
pessoas, Gustavo principalmente vem me mostrando isso, diariamente, em meio aos
tragos, com toda a sutileza e amor abstrato que há dentro dele, me faz enxergar
que tenho minha singularidade, quase consegue fazer eu me sentir como um dos
protagonistas. Obrigado filho.
Sinto o meu tempo se esvaindo, sou uma ampulheta, maldito o
momento que eu percebi que o tempo existe e que ele está correndo como um
louco. Sou escravo dele, amigo dele, refém dele, amante dele. Assisto tentarmos
manipulá-lo com nossas horas, minutos, dias e anos, a mesma falsa impressão de
poder sobre o tempo que eu cito no meu texto "Tempo".
O ano mudou, sinceramente não sei o que isso significa nos
fios constantemente sendo tecidos do universo, mas eu não tenho grandes
expectativas ou projetos, me sinto como uma massa inerte que se move quando
estimulada. Sem projetos eu não cresço, fico estagnado, e sinto que preciso
mudar isso.
Em contrapartida, sinto que tenho uma obrigação de ser
sempre o Sam, o cara que você vai poder chegar e ter uma conversa
existencialista filosófica, sempre o mesmo bom e velho Sam. Não quero mudar ao
ponto de me tornar irreconhecível aos meus. Gosto de ser visto como alguém
familiar e de confiança; um porto seguro ao qual os meus sempre poderão atracar
e descansar, para enfim, navegar novamente.
Em meu baú mofado no alçapão de um navio pirata naufragado,
guardo memórias de tudo e todos; constantemente me afogo quando chego ao baú no
fundo do mar e me distraio com as memórias ali contidas. Me esqueço que preciso
emergir a superfície novamente pra renovar o ar do pulmão, ver se hão novos
barcos atracados no cais.
Anualmente ancorado; Sam.
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